sexta-feira, 19 de maio de 2017

Tentando entender o que acontece na economia brasileira


A crise que estourou em 2015 no Brasil causou, no ano seguinte, o afastamento da presidenta Dilma. A grande mídia, de forma simplista (para não dizer golpista) colocou toda a culpa sobre sua suposta má administração. Mas o que aconteceu, exatamente? Sabemos que o desemprego aumentou e que o dólar subiu. Mas o dólar também havia subido em 2002, quando Lula pela primeira vez apareceu nas pesquisas com grandes chances de ser eleito presidente, e a grande mídia fazia o terrorismo psicológico de que, se ele fosse eleito, “o país iria quebrar”. O dólar então chegou muito perto dos quatro reais (preço de compra R$3,9544 em 22/out/2002, “coincidentemente” cinco dias antes do segundo turno das eleições), e não podemos colocar a culpa “na corrupção do PT”. Em 2015 o dólar voltou à casa dos quatro reais, e nós, que sabemos o tamanho do viés da grande mídia nesse tipo de assunto, precisamos então fazer uma investigação independente, se queremos entender o que aconteceu.

Fonte: http://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?id=txcotacao

Vemos que, após o Plano Real (meados de 1994), o valor do dólar foi fixado pelo Banco Central até o final de 1998, passando no início de 1999 a ser regulado pelo mercado (o chamado câmbio flutuante). Além dos picos que já citamos (2002 e 2015), houve uma leve alta durante a crise financeira de 2008 e 2009. Mas qual foi a causa da última alta, que começa a se esboçar já no final de 2014?

Lembro que, enquanto todos falavam da grande crise financeira internacional em 2008 e 2009, o então presidente Lula disse que o que chegava aqui era apenas uma “marolinha”. De fato, com incentivos fiscais para a venda de eletrodomésticos, e principalmente automóveis, nós fugimos da crise por um tempo (ao custo de abarrotar nossas ruas de carros, mas isso é outra história). Finalmente, a partir do final de 2011, o dólar não parou mais de subir. Partindo de cerca de R$1,55 (o mesmo valor antes da crise de 2008), passou a marca dos dois reais em 18/mai/2012, passou os R$2,50 (para venda) em 23/out/2014 (três dias antes do segundo turno das eleições para presidente), e a partir de então teve uma subida vertiginosa, passando de três reais em 6/mar/2015, passando de R$3,50 em 6/ago/2015, e finalmente ultrapassando os quatro reais em 22/set/2015. Na época o processo de impeachment já estava em andamento, e é preciso perguntar: o dólar subiu como resultado de más políticas por parte do governo federal, ou subiu como resultado do (ou mesmo ajuda ao) caos político instaurado então? Ou, se um pouco de cada, quanto de cada?

Um dos fatores que contribui com a variação do dólar é o comércio exterior. Nossas importações renderam menos que o valor gasto com as exportações a partir de 2008/2009 (o chamado déficit comercial), e a diferença se ampliou a partir de 2013.



Fonte: seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=12&op=0&vcodigo=ST59&t=exportacao-bens-servicos-brvalores-correntes

Mas, quando olhamos o volume das principais exportações (soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina), vemos que não houve alteração, embora tenha havido uma queda substancial no seu valor (principalmente de petróleo e minério de ferro).


Fonte: http://www.mdic.gov.br/index.php/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/base-de-dados-do-comercio-exterior-brasileiro-arquivos-para-download

Isso parece ser explicado pela queda repentina e simultânea no preço dessas commodities, como pode ser visto abaixo.

Fonte: http://databank.worldbank.org/data/reports.aspx?source=global-economic-monitor-(gem)-commodities#

A variação no preço do petróleo merece uma reflexão à parte, mas as demais também pedem uma explicação. Terão sido causadas pelo esfriamento da economia global? Principalmente da economia chinesa? Ainda não sabemos. Mas podemos olhar o quadro mais de longe.

Fontes:
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=iron-ore&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=soybeans&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=crude-oil-brent&months=360


E o mesmo gráfico, corrigindo o valor do dólar pela inflação.

Fontes:
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=iron-ore&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=soybeans&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=crude-oil-brent&months=360

http://www.usinflationcalculator.com/inflation/consumer-price-index-and-annual-percent-changes-from-1913-to-2008/

Vemos uma alta no preço da soja e do minério de ferro de 2008 a 2014, que podem estar relacionados ao aumento da demanda (chinesa, principalmente?) ou à alta (artificial?) do dólar. A queda observada parece ter sido, portanto, um retorno à normalidade.

Se as importações se tornaram mais caras que as exportações, como evitar a alta do dólar, que passou a sair muito mais do que entrar no país? Um caminho seria usar as reservas cambiais para abastecer o mercado, outro é pedir empréstimos, aumentando a dívida pública. Pelos dados abaixo, parece evidente que o caminho tomado foi o segundo. A dívida começou a subir num ritmo acelerado no final de 2015, o que coincide com uma baixa, ainda que relativa, no valor do dólar. Contudo, a mesma estratégia não parece ter sido necessária em 2002, o que nos leva a perguntar sobre as diferenças entre as duas ocasiões.


Fonte: https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/DemonstrReservas_M.zip
Fonte: https://www.bcb.gov.br/htms/infecon/seriehistDLSPBruta2007.asp - https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/Divggp.zip


Aqui vemos uma relação inversa entre a dívida pública e o PIB: enquanto a primeira aumentou, o ritmo de crescimento do segundo caiu. Expressando a dívida como uma fração do PIB, temos o próximo gráfico.

Fonte: https://www.bcb.gov.br/htms/infecon/seriehistDLSPBruta2007.asp - https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/Divggp.zip


Embora a dívida pública tenha aumentado, como proporção do PIB, ainda podemos dizer que está em um patamar perfeitamente manejável, se a compararmos com as dívidas de outros países (exs) ou mesmo do Brasil antes e nos primeiros anos do governo Lula. Outra questão que se apresenta é: qual a mudança do PIB no período estudado?

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.CD

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.CD


Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

O PIB diminuiu 3,8% de 2014 para 2015, e outros 3,6% de 2015 para 2016. Essa sequência de duas baixas consecutivas só foi verificada no Brasil nos anos de 1930 e 1931 (logo após a crise de 1929), quando os recuos foram de 2,1% e 3,3%, respectivamente. Interessante notar que a crise de 2008 e 2009, que afeta muitos países ainda em 2017, já foi comparada à crise de 1929, sendo considerada pior em certos aspectos. Conseguimos hoje adiar seus efeitos por mais tempo que no início do século XX?

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD


Vemos aqui o PIB de diferentes países como parte do PIB mundial. Os países são BRA Brasil, CHN China, DEU Alemanha, FRA França, GBR Grã-Bretanha, JPN Japão e USA Estados Unidos.


Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD

Aqui o mesmo gráfico anterior, mas com o PIB per capita em relação ao PIB per capita mundial.

Vejamos outros indicadores.

Fontes:
IBGE, Pesquisa Mensal de Emprego dez/1991 a dez/2002 - http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=7&op=0&vcodigo=FDT10&t=taxa-desemprego-aberto-pessoas-15-anos
IBGE, Pesquisa Mensal de Emprego, 2002/mar a 2016/jan - http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=7&op=0&vcodigo=PE63&t=taxa-ocupacao


O desemprego, que havia aumentado de 5-6% para 7-8% (na antiga métrica) em 1998, vinha caindo desde 2004 até 2014 (as cores ilustram diferentes metodologias). Em 2015 deu um salto impressionante (de 4,5% para 8%), e sabemos que em 2016 aumentou ainda mais. Isso está diretamente relacionado com a queda do PIB, principalmente nos setores industrial e de serviços.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Os dados oficiais oferecem uma decomposição do setor industrial. O valor do PIB foi dividido pelo custo da Cesta Básica, como forma de remover o efeito da inflação.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Vemos que a indústria de transformação e extração mineral foram as mais afetadas, seguidas pela construção civil. A tragédia do rompimento da barragem de Bento Gonçalves, perto da cidade de Mariana em Minas Gerais, ocorrida no dia 5/nov/2015, parece explicar apenas uma pequena parte do problema.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Na área de serviços, os setores mais afetados foram o comércio, o setor imobiliário, de transportes e outros serviços. Interessante notar que o setor de intermediação financeira e seguros foi o único que cresceu durante a crise, o que leva à óbvia pergunta do seu papel na causa da mesma (principalmente considerando o peso do setor em outras crises pelo mundo, como o caso do Lehman Brothers, entre outros).

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor. - ftp://ftp.ibge.gov.br/Precos_Indices_de_Precos_ao_Consumidor/IPCA/Serie_Historica/ipca_SerieHist.zip

A inflação refletiu a crise, ultrapassando os 10% ao ano no final de 2015. Com o prolongamento da recessão, observamos depois a queda da inflação, num quadro que pode se transformar em deflação, caso a recessão se prolongue ainda por mais tempo.

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor. - ftp://ftp.ibge.gov.br/Precos_Indices_de_Precos_ao_Consumidor/IPCA/Serie_Historica/ipca_SerieHist.zip

Analisando mês a mês, vemos que dois picos de inflação, no início e no fim de 2015, causaram o acúmulo observado no final do ano. Esse tipo de oscilação (inflação alta no verão e baixa no inverno) aconteceu durante todo o período analisado (desde 1996), alcançando em 2015 um nível apenas meio ponto percentual acima do que vinha sendo registrado nos últimos anos. Mas uma pequena inflação extra mensal se acumula numa inflação extra perceptível ao final de um ano.

Fonte: https://www.bcb.gov.br/Pec/Copom/Port/taxaSelic.asp

A taxa básica de juros (SELIC), embora não tenha alcançado os valores em vigor antes de 2006, subiram o suficiente para poder responder por parte da crise, bem como pelo vigor do setor financeiro em meio à crise generalizada.

Fonte: http://radames.manosso.nom.br/palavras/politica/o-valor-real-do-salario-minimo-nos-ultimos-vinte-anos/

O salário mínimo (corrigido pelo INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor) mostra um ganho real ao longo de todo o período analisado. Porém sua variação não é a mesma durante cada governo.

R$316,19 em abr/1995 para R$448,37 em mar/2003 = R$132,18 em 96 meses = R$1,3769/mês (FHC)
R$448,37 em mar/2003 para R$756,08 em fev/2011 = R$307,71 em 96 meses = R$3,2053/mês (Lula)
R$756,08 em fev/2011 para R$883,70 em dez/2016 = R$127,62 em 71 meses = R$1,7975/mes (Dilma)

Usamos como ponto de corte o mínimo valor antes do próximo aumento nominal do salário mínimo, perto da data de posse de cada presidente. Intuitivamente, essa medida parece menos sujeita a variações aleatórias, além de que os primeiros meses de cada mandato parecem ser muito mais influenciados pela “herança” da gestão anterior do que pelas ações de cada governo.

Podemos ainda observar o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica.




Fontes:
http://radames.manosso.nom.br/palavras/politica/o-valor-real-do-salario-minimo-nos-ultimos-vinte-anos/
https://www.dieese.org.br/cesta/

No segundo gráfico fica visível o efeito da inflação de 2015/2016 sobre o poder de compra dos salários.

Como começamos com a variação do dólar no Brasil, vou inserir por último um gráfico - bastante confuso - que mostra a variação do dólar em vários países, a partir de 1971. É útil para avaliar variações causadas pelo dólar em si, e não pela política e economia deste ou daquele país.

Fonte: https://www.federalreserve.gov/releases/H10/hist/

E o preço do ouro em diferentes moedas, como contrapartida ao entendimento (ou tentativa de entendimento) das variações do dólar.

Fontes:
http://www.gold.org/statistics
http://www.gold.org/download/file/3022/Prices.xlsx
https://br.investing.com/commodities/gold-historical-data?cid=964524

Números tendem a ser menos enviesados que discursos, e assim temos agora um quadro aproximado do que tem acontecido no Brasil nas últimas décadas. Para entender corretamente, ainda precisamos avançar no cenário global, para tentar explicar as flutuações do dólar, dos investimentos, do comércio exterior, do preço das commodities e outras variáveis que afetam diretamente a nossa economia e, consequentemente, os ventos da política. Não tendo formação específica na área, ainda é difícil entender a relação entre todas essas variáveis, mas acho que posso afirmar que já é um começo.

Comentários, sugestões e críticas são muito bem vindas.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O que acontece na economia brasileira?

Para tentar entender o que acontece na economia brasileira, preparei alguns gráficos.









Em 1998 a inflação alcançou um valor negativo. Por isso foi preciso somar 1% para poder logaritmizar o eixo Y. O objetivo aqui é observar a variação ao longo do período, mais que os valores exatos.


Em 2002 o terrorismo psicológico dos grandes veículos de mídia dizia que "o Brasil ia quebrar" se Lula fosse eleito. Isso parece ter elevado o dólar. Lula foi eleito, o país não quebrou, e o dólar voltou aos patamares anteriores. A crise de 2008 também parece ter causado um leve aumento no preço do dólar. Mas o que causou a subida vertiginosa do dólar no final de 2014 e em 2015?


A dívida pública aumentou a partir do final de 2015, mas no início de 2017 havia voltado ao patamar de 2006, ainda muito abaixo do valor total do PIB. Poderia isso ter causado a crise atual? Esses dados, obtidos no site do Banco Central, não incluem valores da Eletrobras nem da Petrobras. Mas os valores relatados para os desvios e dívidas da Petrobras não chegam nem perto de explicar toda a variação observada.










Duas metodologias foram aplicadas em 2002. A linha vermelha se refere à metodologia aplicada nos anos seguintes.

Finalmente, um gráfico unindo todos os gráficos acima:


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Confúcio e Laozi


Confúcio visitou Laozi, e falou sobre a caridade e o dever para com o próximo.

Disse Laozi: “O farelo da peneira cega os olhos de um homem, de modo que ele não pode ver em torno. Os mosquitos mantêm uma pessoa acordada a noite inteira com as suas picadas. E do mesmo modo, essa conversa de caridade e dever para com o próximo quase me leva à loucura. Senhor! Esforça-te para conservar o mundo em sua simplicidade original. E do mesmo modo que o vento sopra onde lhe apraz, deixa a virtude ela própria se firmar. Para que desperdiçar tanta energia, procurando um fugitivo com um grande tambor?

“O cisne branco é branco sem se banhar diariamente. O corvo é negro sem se pintar diariamente. A simplicidade original do branco e do negro está além dos limites da argumentação. A perspectiva da fama e da reputação não é digna de ampliação. Quando a lagoa seca e os peixes são deixados na terra, umedecê-los com um sopro ou molhá-los com cuspe não se compara com deixá-los em seus rios e lagos nativos.”

Regressando de sua visita a Laozi, Confúcio se manteve em silêncio durante três dias. Um discípulo perguntou-lhe: “Mestre, quando viste Laozi, como o advertiste?”

“Vi um dragão”, respondeu Confúcio. “Um dragão que pela convergência mostrava um corpo, pela radiação tornava-se cor e correndo para as nuvens do céu alimentava os dois princípios da criação. Fiquei boquiaberto. Como pensas, então, que eu fosse advertir Laozi?”


Lao Tze e Chuang Tze – A Essência do Taoísmo
Trad. David Jardim Jr.
Ediouro 1985

quinta-feira, 27 de abril de 2017

História do Brasil em um parágrafo

"Quando um país é, em larga medida, posse de estrangeiros, a demanda social pela expropriação é recorrente e quase irreprimível. Outros atores do quadro político respondem que somente a proteção incondicional dos direitos de propriedade originais garante um ambiente adequado para o investimento e o desenvolvimento. O país se encontra, desse modo, preso numa interminável alternância entre governos revolucionários (cujo sucesso na promoção de melhorias na qualidade de vida de seu povo é, muitas vezes, limitado) e governos que protegem os interesses dos proprietários existentes enquanto preparam a próxima revolução ou golpe de Estado."

Thomas Piketty - O Capital no Século XXI - Ed. Intrínseca - 2014 - Pág. 75.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Bancos públicos promovem mais crescimento?


Lendo uma reportagem no Intercept Brasil, lembrei de um comentário feito há alguns anos por um colega economista no Facebook. Ele dizia que os países que mais crescem economicamente (maior aumento do PIB) geralmente têm a maioria dos bancos públicos.

Sua tese fazia sentido. Afinal, sabemos que boa parte do capital mundial é puramente especulativo, e os "magos das finanças" são especialistas em multiplicar números no computador, engordando suas contas bancárias sem nenhum retorno para a sociedade. Assim, quando deparados com a opção entre investir no crescimento do país ou em investimentos parasitários, espera-se que os bancos privados escolham o que der mais lucro.

Outros já falaram sobre isso, como o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega em 2012 e a advogada e presidente do Public Banking Institute, Ellen Brown, em 2011.

E, claro, há os que dizem o contrário, como este artigo no Journal of Finance, de 2002. Curiosamente, os autores afirmam logo no resumo que "higher government ownership of banks in 1970 is associated with slower subsequent financial development and lower growth of per capita income and productivity". Por que usam dados defasados em 32 anos para defender sua tese ainda é um mistério para mim.

Mas os números confirmam essa tese, ou teoria, ou hipótese?

Em primeiro lugar, vamos ao poder econômico das grandes nações. Antigamente, o G7 era o grupo das economias que dominavam o planeta: Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Alemanha, França, Canadá e Itália. Em 2014, porém, um novo G7 surgiu: China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia. Em termos de Paridade do Poder de Compra (que mede não o dinheiro no país, mas o que ele pode comprar), o novo G7 ganharia do anterior por 37,8 a 34,5 trilhões de dólares.

Uma pesquisa de 2013 reuniu alguns dados básicos sobre os bancos de 143 países. Quantos % dos bancos são públicos em cada um desses países? No antigo G7 temos: Estados Unidos (0%), Japão (sem dados), Inglaterra (26%), Alemanha (32%), França (2%), Canadá (0%) e Itália (0,1%). No novo G7 temos: China (sem dados), Índia (74%), Brasil (44%), Rússia (41%), México (13%), Indonésia (38%) e Turquia (32%). Acho que não é preciso calcular a média para ver a diferença. Mas para os perfeccionistas de plantão: antigo G7 média de 10,02%, novo G7 média de 40,33%. (PS extraído da pesquisa, página 7: "China did not respond to this question, but available information indicates the figure exceeds 90 percent. In the 2007 survey China did respond and reported the share was slightly less than 70 percent, but this only captured the four big state owned banks. The figure exceeds 90 percent even earlier if one includes all state or government owned banks".)

O gráfico a seguir, com dados do Banco Mundial, mostra o crescimento (e decrescimento) de alguns desses países entre 1960 e 2014:


Vemos os EUA, que em 1960 detinham 40% do PIB mundial, caírem para 22% em 2014. A China cresceu de menos de 2% para cerca de 13% em 20 anos, enquanto as nações do antigo G7 mostraram quedas consideráveis, especialmente o Japão, que caiu de 17,5% para 6% nos mesmos 20 anos. Alemanha, França e Grã-Bretanha também apresentaram queda, embora menos drástica. Já o Brasil apresentou um crescimento espetacular nos últimos anos, de cerca de 1,5% do PIB mundial em 2003 para 3,5% em 2011. A queda posterior, de 3,5% para 3,0% entre 2011 e 2014, foi muito menor que a "quebra do país" alardeada pela grande imprensa, principalmente quando comparada com o segundo mandato do "príncipe da privataria" Fernando Henrique Cardoso (1998-2002).

Mas esses dados ainda não são o bastante para testarmos nossa hipótese de que uma maioria de bancos públicos são saudáveis para o crescimento dos países. O gráfico abaixo relaciona todos os países para os quais temos dados, unindo a pesquisa de 2013 citada acima (com dados de 2011) com os dados sobre crescimento do Banco Mundial (para todos os anos entre 1961 e 2015). Como não entendemos exatamente como se dá a relação entre a propriedade dos bancos e o crescimento, usamos os dados de crescimento de 2008 a 2013, cruzando-os sempre com os dados bancários de 2011.

2008





A diferença entre os gráficos acima é que na esquerda estão presentes todos os países com dados disponíveis, enquanto na direita foi retirado o Zimbabwe, que apresentou um decréscimo atípico (o chamado outlier). Nos dois casos a relação positiva (quanto maior a % de bancos públicos, maior o crescimento do PIB) foi significativa (p < 0,03, ou seja, há uma chance de menos de 3% de que esses dados sejam mera coincidência -- digamos, apenas jogando números aleatoriamente numa tabela).

2009

Aqui não há outliers, e novamente se observa a relação positiva e significativa (p < 0,04) entre as variáveis estudadas. A linha de tendência, em vermelho, corta o eixo Y abaixo do zero (como pode ser visto na fórmula "+ -2,0699"), nos lembrando da quebradeira mundial que assistimos após os escândalos financeiros de 2008 (onde ninguém foi punido).

2010

Aqui o outlier no gráfico da esquerda foi Macao, com um crescimento bastante atípico. No gráfico da direita Macao foi removida. Antes da remoção, a relação era mais fraca e menos significativa (p < 0,05), após a remoção se tornou mais forte e mais significativa (p < 0,01).

2011


Com todos os países, a relação não é significativa o bastante (p > 0,10). Mas uma vez retirados os dois outliers mais evidentes, Macao com um crescimento bastante atípico, e a Grécia com um decréscimo atípico, a relação se torna outra vez bastante significativa (p < 0,02).

2012



De 2012 em diante a situação deixa de ser significativa, incluídos (p > 0,13) ou excluídos (p > 0,26) os outliers, a saber: Serra Leoa com um crescimento atípico e novamente a Grécia com decréscimo atípico.

Evidente que esses dados não encerram o assunto, há muitas outras variáveis envolvidas, e ainda não há explicação para o fato de dados bancários de 2011 se correlacionarem tão bem com dados do PIB de 2008, mas não com os de 2012. A não ser que tenha havido mais mudanças entre 2011 e 2012 do que entre 2008 e 2011, o que parece pouco provável (mas não impossível). Um estudo mais aprofundado poderia ajudar a esclarecer essas e outras questões.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Falsa ciência


CDC trabalha em conluio com fabricantes de vacinas ... você pode realmente confiar nesta "falsa ciência?"

1. Isto não é “ciência” é apenas política.

2. É sim, falsa ciência, sem aspas.
Acho que a definição dos termos, a definição das expressões, das palavras usadas, deve ser o primeiro passo para uma política honesta, como já disse Confúcio.
Acho que verdade é dizer que é aquilo que é, e dizer que não é aquilo que não é, como já disse Aristóteles.
Acho que conhecer a verdade é uma vã ilusão humana, e no entanto é o Norte para quem se diz honesto e/ou honesta.
Há ilusões e mentiras que agradam a todo mundo. E outras que são infantis. Mas o que separa crianças de adultos é a coragem de buscar entender a verdade. Será por isso sermos hoje tão crianças?
Acho que em diferentes épocas houve diferentes formas e pressões ao se buscar a verdade. Como hoje há uma minoria que já jogou essa palavra – verdadena lixeira. E ai de quem chegar perto.
Assim uma política sem ciência é como uma ciência sem filosofia, como uma filosofia sem ciência... uma linguagem sem objeto, uma subjetividade sem objetividade, um Eu sem o Outro, um nós sem nada, um algo no vácuo – sem ser a Terra no Espaço, Nosso Lar no Desconhecido, A Unidade Real no Multiverso.

3. Para não entrar no mérito do exposto, que não seria novidade.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Arte de Escrever

É fácil desmascarar certos impostores pela forma como escrevem. Schopenhauer já nos alertou sobre isso nos textos publicados no Brasil sob o título A Arte de Escrever. Para não me estender demais, vou aqui apenas dar um exemplo.

Bom escritor:

O céu é azul.

Mau escritor:

A abóbada que nos recobre o vasto mundo, desde o nascente até o poente e passando por todas as áreas habitadas ou não, é de tal forma ampla que poderíamos levar toda a vida a percorrê-la, sem ainda nos dar conta de sua real extensão - tal é o chamado céu, cuja cor à primeira vista pode parecer óbvia, contudo suas nuances são várias, tênues e delicadas, mudando conforme a estação e o horário do dia, e ainda assim há um tom predominante, ou pelo menos é o que nosso imperfeito aparato sensorial nos permite supor, e mesmo aqui haverá sempre espaço para interpretações diferentes e difusas, pois a variedade da experiência humana nos leva a crer que tudo é relativo, que somos todos diferentes, embora iguais, ou nem mesmo iguais, mas apenas diferentes, assim a cor que vemos pode não ser a mesma que veem nossos irmãos, ou os povos de outros continentes, ou quem sabe a cor é a mesma, mas as palavras para defini-las variam, ou sendo as cores diferentes, convencionou-se usar os mesmos nomes às vezes por mero hábito de imitação, outras vezes por violenta imposição, de tal forma que nem mesmo os povos mais isolados e puros - se é que tal adjetivo pode ser usado - estarão livres da dúvida sobre a origem dos termos que usam, se são mesmo seus ou se pertencem a outrém, e é por isso que não podemos jamais estar certos da cor exata a que nos referimos quando queremos falar sobre a cor que vemos todos os dias, ou quase todos, pois há também os dias chuvosos e os de nevasca, os nublados e os pálidos, isso sem falar no nosso próprio estado de espírito, onde a melancolia mais profunda acentua os tons sombrios, modificando o matiz para o lado negativo, inferior ou maligno do espectro, e igualmente a alegria, a excitação e o otimismo acentuam os tons claros, forçando os matizes positivos, superiores ou benignos; desta forma... do que é que estávamos falando mesmo?

PS: Tirando o lapso de honestidade da última pegunta, o resto dá uma ideia clara do tipo de escritores a que me refiro. Infelizmente esse tipo parece dominar nossas universidades, dando dor de cabeça aos estudantes quando deveriam dar-lhes educação. Voltarei a esse assunto tratando dos tipos de falácia que tenho visto (além da prolixidade, claro).

Acharam o exemplo exagerado? Leiam Schopenhauer, que já denunciava esses tipos há mais de 150 anos.