quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O dilema das redes sociais (e da Netflix)

Acabei de assistir O Dilema das Redes (2020), documentário da Netflix que consegui baixar por Torrent. Por que baixei por Torrent ao invés de assistir na Netflix? Fica para outro texto.

O documentário fala da influência das redes sociais sobre nosso comportamento e sobre a polarização política que vem crescendo nos últimos anos. Mostra como os algoritmos (sigilosos) que regulam seu funcionamento são feitos para maximizar nossa atenção e presença online (e, claro, consumo), independente do mal que isso possa causar, especialmente a jovens em desenvolvimento.

É um documentário interessante e bem dinâmico (ou seja, também feito para maximizar nossa atenção e audiência). De fato, os algoritmos das redes sociais têm vários problemas. Causam sim, ou ao menos contribuem para, vários dos problemas citados, como auto-lesões e suicídios de crianças e adolescentes, que têm crescido nos últimos anos, ou a polarização política, onde um lado simplesmente não consegue mais conversar com o lado oposto do espectro político.

O problema do documentário, e da maioria dos produtos da Netflix, é sua superficialidade. Eles criticam a busca irrestrita do lucro pelas tech giants, chegam a falar em regulação estatal, mas se recusam a admitir que se trata de um problema intrínseco do modo de produção capitalista, que não começou ontem a destruir nossos recursos naturais e nossa saúde visando mais e mais lucro.

Não são só as redes sociais que nos prejudicam para lucrar, são também o agronegócio latifundiário, a urbanização irrestrita e sem planejamento, a indústria farmacêutica, a indústria alimentar, o sistema financeiro, e assim por diante. Para sermos honestos, o problema começou quando os primeiros padres, acusando de “pecaminoso” o estilo de vida comunitário dos povos ameríndios, impuseram a destruição de suas malocas. Para os padres, o “correto” eram casinhas separadas, cada uma com pai, mãe e crianças, e isso virou uma regra nefasta, jamais questionada. Mesmo que saibamos que “é preciso uma vila para educar uma criança”. Sofrem pais, sofrem crianças, sofre a sociedade como um todo.

Um dos personagens do filme, um jovem que se vê forçado a ficar uma semana sem celular, fica contando as horas trancado em seu quarto durante a manhã. Onde está sua comunidade? Onde estão seus amigos, seus vizinhos? A cena pode até parecer superficial, mas de fato, nós quase não saímos mais à rua. Quem arruinou nossas comunidades? Mal planejamento urbano, êxodo rural forçado, uma “guerra às drogas” que só aumenta a violência e a corrupção… Mas o filme não toca nesse ponto.

O filme atribui exclusivamente às redes sociais a ignorância moderna: a impossibilidade do urbanoide conectado em saber onde está a verdade, dada a quantidade de informação que recebe, muitas vezes contraditórias, ainda mais vezes alienantes e sensacionalistas. Mas o filme omite que a mentira e o sensacionalismo são a história do Ocidente. Como se não tivéssemos destruído as culturas indígenas para salvar suas almas. Como se não tivéssemos escravizado negros (já que os índios preferiam se matar) com a desculpa de que não tinham alma. Foram séculos de mentiras, muitas delas impostas pelo cristianismo nas cabeças de um povo crédulo e amedrontado. Com o avanço da ciência, essa religião cheia de tabus e superstições perdeu poder, permitindo o avanço dos projetos socialistas, buscando uma sociedade menos excludente. E isso durou um tempo, até que a semente atual de caos, retratada no filme, pudesse germinar. O que o filme novamente omite é que nenhuma semente nasce em qualquer solo. A maioria precisa que o solo seja arado, adubado, ervas daninhas removidas, etc. E as “mãos de agricultor” que permitiram o florescimento do atual estado de hiper-individualismo, fragmentação e extremismo tem nome: pós-modernismo.

Essa “onda pós-moderna” tomou conta das universidades, ensinando que “cada um tem a sua verdade” e que “a mente cria a realidade”, entre outros absurdos. Um movimento que ataca a razão, a lógica e a ciência e promove o individualismo e a fragmentação desde os anos 1960, passando por “progressista” enquanto ia na direção contrária do “trabalhadores do mundo, uni-vos!” de Marx. Pior: uma tamanha farsa intelectual conseguiu enganar boa parte da esquerda, que tem contato com esses textos ainda jovens, antes de terem uma bagagem histórica, sociológica e científica mais sólida. Também pudera, enquanto alguns intelectuais denunciam a farsa, as redes sociais tradicionais que a promovem – editoras, gráficas, revistas acadêmicas, jornais, universidades, estações de rádio e TV – concentram-se cada vez mais nas mãos da chamada judeocracia, a mesma que controla os sistemas financeiro, político e judiciário da maioria dos países. A mesma que, aparentemente, criou de forma calculada os absurdos pós-modernos como forma de combater a razão que permitia o avanço do socialismo pelo mundo. A mesma que controla corporações como as big tech e, claro, a própria Netflix.

Numa certa passagem, parece que a culpa é da internet como um todo, como se a regulação da mesma fosse a solução. E essa tem sido uma ideia, uma sugestão subliminar, cada vez mais comum. Punir e até fechar sites criminosos não bastaria, seria preciso um controle de conteúdo que, obviamente, seria usado pela judeocracia para silenciar os seus críticos.

Ao serem perguntados sobre alternativas às redes sociais dominantes, os entrevistados do filme – vários deles ex-funcionários das mesmas – permanecem em silêncio, ou apontam soluções absurdas como abandonarmos todas as nossas redes sociais. Mas em nenhum momento citam a existência de redes descentralizadas, com algoritmos abertos, como Mastodon, Diaspora, Manyverse e outras.

Tamanhos silêncios no filme não são um “engano”, muito menos “acaso”. É esperado que as críticas do capital ao próprio capital sejam apenas cosméticas, “pra inglês ver”, ou melhor, para ganhar a nossa aprovação e simpatia, enquanto as raízes do problema permanecem devidamente enterradas e vigorosas. E isso a Netflix sabe fazer tão bem quanto as redes que denuncia.

O dilema da Netflix

O livro 1001 filmes para ver antes de morrer (Sextante, 2008) traz, por década:

1900 – 2 filmes
1910 – 5
1920 – 39
1930 – 85
1940 – 92

Segundo o site reelgood.com, a Netflix tem (nos EUA) apenas 13 filmes produzidos entre 1900 e 1949, nenhum dos quais pode ser considerado um clássico como O Nascimento de uma Nação (1915), Nosferatu (1922), Metrópolis (1927), King Kong (1933), Tempos Modernos (1936), E o Vento Levou (1939) ou Casablanca (1942), para citar alguns.

Na década de 60 (1960 a 1969), o livro da editora Sextante traz 153 filmes, enquanto a Netflix estadunidense traz apenas 9 títulos, sem nada que se aproxime de Psicose (1960), Lawrence da Arábia (1962), Os Pássaros (1963), O Professor Aloprado (1963), Três Homens em Conflito (1966), Terra em Transe (1967), O Bebê de Rosemary (1968), 2001, uma Odisséia no Espaço (1968), A Noite dos Mortos Vivos (1968) ou Macunaíma (1969).

Apenas na década de 80 a Netflix começa a trazer filmes mais prestigiados, como Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (1980), Caçadores da Arca Perdida (1981) e De Volta para o Futuro (1985). Ainda assim, sua lista traz apenas 50 títulos (de um catálogo total de 3.730 filmes). Já o livro 1001 Filmes… traz 152 produções para o mesmo período.

Uma coisa fica clara: a Netflix não é um serviço para amantes do cinema.

Há, é claro, amantes de séries. Mas num universo de milhares (milhões?) de filmes realizados em todo o mundo há mais de um século, nos mais diferentes estilos, padrões de produção, visões cinematográficas, contextos históricos e culturais, etc., eu acho um desperdício assistir incontáveis episódios de incontáveis temporadas da mesma coisa, só porque “todo mundo” está vendo. Sem contar os roteiros aparentemente escritos, cada vez mais, por algoritmos que misturam doses calculadas de humor, suspense, drama, reviravoltas e non-sense, gerando produtos cada vez mais parecidos e sem sabor.

Mas vamos nos ater aos filmes. O IMDB registra 485 mil longas-metragens entre 1800 e 2020 (feitos para o cinema ou para a TV). Se incluirmos os curtas-metragens, este número sobe para 1,23 milhão de filmes. É óbvio que nem todos os filmes estão no IMDB, o que pode talvez jogar o total de longas para muito além de 1 milhão. Se todos esses filmes (1 milhão, digamos) representassem a superfície dos continentes terrestres (excluindo a Antártica, o que soma 134,94 milhões de km²), cada filme representaria 134,94 km², e o catálogo da Netflix (com seus 3.730 títulos) representaria cerca de 503 mil km², menor que a Bahia, ou próximo à área da Espanha. Por mais interessantes que sejam a Bahia e a Espanha, passar uma vida apenas nesses lugares, quando passagens para conhecer o resto do mundo são gratuitas, é uma opção bastante restrita. Além disso, a comparação ainda é injusta, pois Bahia e Espanha apresentam uma diversidade cultural considerável, enquanto a equipe responsável pela grade da Netflix, uma companhia capitalista, escolherá a dedo os filmes que definitivamente não entrarão no catálogo. Anos atrás assisti um filme sobre Noam Chomsky na casa de um amigo. Pouco depois, ao procurá-lo, já não estava mais lá. Claro, Chomsky é um notável crítico do imperialismo capitalista, em especial o dos EUA. Uma amiga citou um documentário sobre Rachel Carson que tocava na ferida do capitalismo, mas se lembrou: “ficou na Netflix por pouco tempo”. A regra é clara: quer ter contato com a diversidade real do mundo? Fuja das corporações.

Mas quem disse que assistir filmes é gratuito? A internet e a palavra torrent dizem. É claro que nem todos os filmes serão encontrados via torrent, mas como em qualquer iniciativa descentralizada, a diversidade reflete muito mais a realidade que qualquer empreendimento liderado por um CEO e acionistas que só pensam naquilo (lucro, claro). Sem falar que os filmes disponíveis por torrent, incluindo todos os clássicos listados acima, certamente ultrapassam, de longe, o limitado catálogo da Netflix.

Mas será ético baixar filmes de graça, roubando dinheiro que seria direcionado aos cofres das produtoras? Vejamos:

  1. A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 7º, diz que é direito dos trabalhadores urbanos e rurais um salário mínimo “capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social”. Diz ainda, no artigo 6º, que são direitos sociais (ou seja, de qualquer cidadão, não apenas dos trabalhadores) “a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social”, entre outros. Metade do nosso orçamento vai para o pagamento de juros, de forma ilegal e imoral, enquanto os poderosos abafam toda iniciativa de uma auditoria cidadã da dívida. Ao mesmo tempo, o salário mínimo mal dá conta da moradia e alimentação saudável da população, que dirá do seu lazer e educação (que também incluem produtos culturais como o cinema).
  2. Os rentistas que sugam o Estado através da dívida pública não são necessariamente os mesmos produtores de cinema, ou são? O que o termo judeocracia tem a ver com isso? (Dica: esse termo interliga os dois grupos.)
  3. Se a sociedade retirar dinheiro dos produtores de cinema, menos filmes com grandes orçamentos poderão ser feitos, o que resultaria em menos blockbusters ocupando metade das salas em cada cidade e tirando o espaço de produções menores que, com isso, poderiam finalmente alcançar o grande público. Perfeito!
  4. Algumas décadas atrás existiam pequenos cinemas de bairro, com estruturas pequenas, que podiam cobrar ingressos mais acessíveis. Hoje as salas de cinema estão restritas aos shopping centers, cobrando preços abusivos tanto nos ingressos quanto na pipoca e refrigerante (sem contar o transporte e/ou estacionamento), diminuindo ainda mais o acesso das camadas populares a essa forma de lazer e cultura. Em São Paulo, uma das capitais mais caras do país, o ingresso de cinema custava 5-7 reais em 1997, quando o salário mínimo era de 112-120 reais (um ingresso era 4,17-6,25% do salário mínimo). Em 2007, o ingresso na mesma sala aumentou para 12-15 reais, com um salário mínimo de 350-380 reais (um ingresso era 3,16-4,29% do salário mínimo). Em 2017, o mesmo ingresso passou a 20-35 reais, com o salário mínimo em 937 reais (um ingresso era 2,13-3,74% do salário mínimo, isso depois de 13 anos de valorização real do salário mínimo). Ou seja, uma família de 4 pessoas que ganha um salário mínimo tem o direito de ir ao cinema, mas terá gasto hoje (ou melhor, em 2017) mais de 10% de sua renda mensal (mais de 20% na era FHC).
  5. Existem vários filmes excelentes que, na visão das produtoras e distribuidoras, não darão lucro suficiente para serem relançados em DVD, muito menos reexibidos nas salas de cinema, onde só há espaço para novidades. Um DVD hoje varia de 20 a mais de 100 reais, com a maioria (os filmes que valem o nosso tempo, claro) custando entre 30 e 40 reais. Blu-Ray são ainda mais caros. Isso, além de estar fora da realidade da maioria das famílias, desconsidera que a maioria dos filmes sequer serão encontrados nesse mercado.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948, tentou ficar em cima do muro nessa questão. Em seu artigo 27, ela traz dois enunciados que supostamente se contradizem, especialmente em relação ao assunto aqui tratado:

  1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
  2. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.

Segundo essa declaração, todos temos o direito de fruir as artes produzidas em nossa civilização. Ao mesmo tempo, os criadores dessa arte têm o direito de lucrar com ela. Quando as duas entram em conflito (o ingresso é muito caro para a maioria das pessoas), onde está o erro? Não estará no objetivo de lucro milionário dos produtores, enquanto as pessoas comuns sequer têm acesso a comida saudável? E mais, se a cláusula 1 vem antes da 2, por que a 2 deveria ser priorizada em caso de conflito de interesses?

Concluindo, se você acredita que é culturalmente relevante conhecer a produção cinematográfica mundial (assim como conhecer livros e outros produtos culturais – sendo que para os livros existem bibliotecas públicas), e se você acredita que pessoas que vivem de investimentos, lucros e juros poderiam trabalhar, como qualquer um de nós é obrigado a fazer para não morrer de fome (ou ser preso, bem antes disso), então você precisa aprender a baixar filmes via torrent. Descubra sites que recomendam os tipos de filme que você mais gosta. Coloque no Google o nome do filme (de preferência o nome original), seguido da palavra torrent (às vezes acrescentar o ano da produção ajuda). Abra os primeiros resultados em abas diferentes, e depois vá analisá-los. Aprenda a desviar das propagandas. Faça seu gerenciador de arquivos exibir as extensões dos tipos de arquivos conhecidos, e aprenda a reconhecer essas extensões (só isso já elimina a maior parte dos vírus). Olhe onde está clicando (o link geralmente aparece na parte de baixo da tela do navegador). Conheça os principais sites de download. Faça sempre backup. E, de preferência, mude para o Linux e escape do monopólio da Microsoft (que aliás, tem um produto de péssima qualidade, como qualquer monopólio). Um mundo culturalmente mais rico agradece.

domingo, 16 de agosto de 2020

Trecho de (tentativa de) diálogo num almoço em família

“Cada um acredita no que quer!” Ela disse.

“Não.” Respondi. “Você está errada. Não é assim que...”

“Não tem isso de estar errada! Nós só temos visões de mundo diferentes...” concluiu, com um sorriso que parecia benevolente.

“É errado causarem prejuízo a outras pessoas porque acham que têm o ‘direito de estar errados’. E vocês estão errados! Mas adoram se fingir de surdos. Vocês criticam sua mãe, mas agem igualzinho, repetindo os pensamentos errados do tio-pastor. Ah! Que preguiça falar pra quem odeia ouvir! E se não falamos, sua ‘coletividade’ termina de destruir o planeta. O que você queria que eu fizesse?” Olhei sério para ela. Sua cara misturava espanto e confusão.

“Eu não estou te entendendo.”

“Religião! Ainda. Vocês sempre disseram que não entendem o que falo, mas também nunca quiseram entender. Acham que ‘cada um acredita no que quer’ e pronto, como se isso não fosse uma programação mental pra escravizar a gente.”

“Ah, quer saber? Eu vou embora! Esse papo já cansou! Fui!!” E saiu, batendo a porta.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Um Gozo da Natureza (Lin Yutang)

Lin Yutang – A Importância de Viver
Capítulo décimo – O Gozo da Natureza
IV – Rochas e árvores

Não sei que vamos fazer agora. Estamos construindo casas quadradas, todas em fila, e temos ruas retas, sem árvores. Não há mais ruas tortas, nem casas velhas, nem poços nos jardins, e o raro jardim particular que acaso se vê nas cidades não passa de uma caricatura. Chegamos a separar a natureza de nossas vidas, e vivemos em casas sem telhados, pois o telhado é o que há de mais descuidado num edifício moderno, que é deixado de qualquer modo depois de preenchidos os requisitos utilitários, visto que o empreiteiro da construção já está cansado e com pressa de terminar o seu trabalho. O edifício comum parece uma pilha de cubos de madeira construída por um menino displicente ou caprichoso que se cansa do brinquedo antes de havê-lo terminado, e deixa sua pilha sem concluir, sem coroar. O espírito da natureza abandonou o moderno homem civilizado, e parece que procuramos civilizar também as próprias árvores. Se acaso nos lembramos de colocá-las em uma avenida, costumamos numerá-las em série, desinfetá-las, cortá-las e podá-las para que assumam uma forma que os humanos consideram suficientemente bela.

sábado, 11 de julho de 2020

Tudo existe

Tudo existe. Essa afirmação pode parecer exagerada, e talvez seja, mas há nela um fundo de verdade.

Supondo que seja mesmo um exagero, ainda assim dizia Terêncio que nada que é humano nos é estranho. Pois ele viveu bem antes do rigor moralista destruir os banhos públicos da sua terra e declarar que quase tudo que é humano é proibido. Assim ele pôde conhecer a diversidade humana do seu tempo. A diversidade é a regra número um da Natureza, e assim como há incontáveis tipos de plantas, de insetos e de outros organismos, há também incontáveis tipos de pessoas, cada qual com suas peculiaridades. Se a maioria gosta de café, haverá quem não goste. Se quase todos gostam do dia, há quem prefira a noite. Se os homens em geral procuram belas esposas, há os que delas se afastem. A diversidade deve ser o filtro, quando olhamos para o público e esperamos fazer justiça em nossos julgamentos. Há os que dizem “não julgar”, mas com isso estão apenas permitindo que outros julguem em seu lugar, e geralmente é melhor denunciar uma injustiça do que evitar julgá-la.

Mas se “tudo existe”, então “tudo é permitido”? Não necessariamente. Temos sido animais sociais desde nossos antepassados mais remotos. Qualquer animal social vive em relativa harmonia, sem precisar de um código de leis nem de um batalhão de fiscais. Quase todo ser vivo sabe a diferença entre o certo e o errado, e os que não sabem – esses existem, posto que tudo existe – serão informados, ou corrigidos, ou finalmente expulsos pela maioria que sabe. Isso sempre foi assim, e só se tornou algo preocupante quando os moralistas decidiram criar tábuas de regras sobre o que seria permitido e o que seria proibido. A partir de então, os que deveriam se considerar apenas membros da comunidade passaram a se considerar membros do batalhão de fiscais, e as informações, as correções e as expulsões, que sempre foram exceção, tornaram-se regra. Aí então essa parcela da humanidade, que diz viver da lei, passou a viver do medo, da opressão, do controle, da dissimulação e da mentira. Mas, tudo existe, até isso.

A questão que devemos nos propor não é o que existe ou não, mas o quão comum e o quão raro é cada variedade de comportamento. É verdade que uma e outra mãe matará os próprios filhos e os colocará na sopa e os devorará, mas é um evento tão raro que não precisamos nos preocupar. A maioria das mães continuará cuidando e querendo bem à sua prole. Se algum dia, em cada casa, ou em cada rua, ou em cada vila, uma mãe começar a se alimentar dos próprios filhos, aí nós deveremos nos preocupar: algo na água ou na comida estará modificando o instinto natural. Até lá, concentremos nossa energia em cuidar bem dos vivos. Mas quem conta a história decide o que tem sido normal e o que não tem sido, e é muito fácil para os espertos convencerem os crédulos de que algo comum antes era raro ou inexistente. Essa é, de fato, a técnica que usam para impor suas tábuas de regras, e com isso ganharem um respeito que sua mediocridade jamais teria lhes dado. Mas esses tipos também hão de existir, como sempre existiram. A pergunta é: estamos vacinados contra eles?

sexta-feira, 1 de maio de 2020

“Vá e não peques mais”

É famosa a história onde Jesus salvou a prostituta (ou adúltera), dizendo aos que queriam apedrejá-la: “Atire a primeira pedra aquele que não tem pecado!”

Menos lembrado é o desfecho, onde Jesus disse a ela: “Vá e não peques mais!” (João 8:11)

Por que não disse isso aos que buscavam apedrejá-la? “Não pequem mais!”

Os pecados dos outros ele aceitou. Não aceitou que a matassem aquele dia, é verdade, mas aceitou que continuassem pecando. Disse a ela para que não mais pecasse, pois no fundo sabia que não estaria ali todos os dias, para relembrar a turba que não deviam seguir o preceito homicida do patriarca Moisés (João 8:5).

E o final da história? “Jesus morreu para expiar nossos pecados” (Romanos 4:25). É por isso que basta nos arrependermos de nossos pecados, e poderemos assim entrar no Reino dos Céus. Por isso hoje as multidões, sempre tão cristãs, continuam apedrejando putas e travestis, e as prendendo, e com elas os traficantes, os mendigos que não têm onde dormir, os que roubam por um prato de comida. Esses recebem a ira de homens e mulheres, adultos e crianças, pobres e ricos. Que amanhã se arrependerão e serão salvos.

Já os industriários, os rentistas, os bilionários que exploram trabalhadores para acumular sempre mais, a respeito desses, padres e pastores não perdem tempo em nos lembrar das santas palavras do Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, ó Pai, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mateus 6:12 e Lucas 11:4). É praticamente uma extorsão. O deus mafioso, chefe da milícia, ameaça o crente: “Se você não perdoar os corruptos que o exploram, que roubam remédio dos hospitais, que roubam merenda das escolas, ASSIM COMO espera ser perdoado, adivinha o que te esperará logo ali, depois da esquina da morte, entre o arder das labaredas e o arrastar das correntes?”

Realmente, o cristianismo é de uma doçura candente...

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sobre a conversa de Krenak e Gleiser, em 17 de abril de 2020 (do falso calendário)

Numa conversa online em tempos de pandemia, o líder indígena e escritor Ailton Krenak e o físico e divulgador científico Marcelo Gleiser tiveram uma conversa sobre a seguinte questão: por que os brancos se separaram tanto da Natureza, e qual o caminho para reverter essa triste realidade?

Gleiser começou pontuando o papel da ciência na compreensão crescente dos fenômenos naturais, reduzindo o espaço do mito e do sagrado. Com a ciência veio a técnica, capaz de aumentar a produção agrícola, permitindo a sobrevivência de uma crescente população urbana, cada vez mais longe dos ambientes naturais. Assim, a “espécie mais sábia” do planeta usou sua inteligência, razão e ciência, para dominar a Natureza, mesmo à distância.

Krenak falou sobre a cultura indígena, comum a povos de todo o mundo, de nos vermos como parte da Natureza, e não como uma espécie “superior” destinada a “dominá-la”. Falou ainda da “flecha do tempo” (como se obrigada a chegar num lugar específico), característica da cultura judaico-cristã, que divide o mundo em três etapas: Criação e um breve Paraíso, milênios de sofrimento, e um futuro (alvo da flecha) onde a Terra e a Natureza teriam fim, e todos os obedientes ao Livro seriam finalmente levados a um lugar melhor, bem longe daqui, no “céu”.

Não espanta que o Ocidente tenha se distanciado tanto da Natureza, afinal isso vem sendo pregado há milênios, sob o terrorismo psicológico de um inferno eterno e doloroso para os pobres ignorantes que duvidarem. (De fato ignorantes, pois sua cultura ancestral foi destruída e, nas cidades para onde foram expulsos, são forçados ao analfabetismo funcional.)

As outras culturas, espalhadas pelo mundo e ameaçadas pelo homem branco judaico-cristão e capitalista, sempre viram a história não como uma flecha linear, mas como um círculo ou espiral, cujo início remoto pertence à mitologia, mas cuja realidade palpável se repete ano após ano, século após século, milênio após milênio, sem objetivo definido, a não ser o que escolhermos, conscientes ou nem tanto.


Criou-se um mito do “sobrenatural”, de “forças sobrenaturais”, “acima” e “além” da Natureza, quando a visão adulta reconhece que tudo é natural. Os ocidentais, homens e mulheres, se infantilizaram no decorrer dos últimos milênios, até o ponto em que é impensável reconhecerem o mundo real. Fogem da realidade, fogem do pensamento crítico, fogem do debate, como se a Natureza, a Realidade, fosse a inimiga, e a salvação residisse num “pós-vida” prometido por homens machistas e imperialistas, que via de regra usurparam, conquistaram, destruíram... E ainda assim a maioria espera (ou finge esperar) que dessa toca saia coelho?

O momento atual não é necessariamente um limite. Não é o “fim do mundo” que se aproxima, inevitável. O que passamos, como Krenak descreveu, está mais para um “ajuste de foco”, onde podemos olhar detalhes que antes não notávamos, e cabe a nós fazer bom uso da nova visão. Ninguém vai descer dos céus para nos salvar. Papai Noel não existe, já passou da hora de crescermos.

Gleiser, falando do parentesco evolutivo de todos os seres na Terra, nos lembrou que compartilhamos 25% dos nossos genes com as árvores. É o mesmo tanto que, em média, compartilhamos com tios, tias, sobrinhos e sobrinhas. Isso nos lembra que não são necessariamente a ciência e a técnica que estão em oposição aos ideais mais nobres. Pelo contrário, a ciência, a razão e a lógica sempre serão atacadas pelos que dependem de massas infantis para prosperarem. E como há raposas vestidas de galinhas! As faculdades de ciências humanas, filosofia e sociologia, estão cheias desses tipos. Os predadores atacam primeiro os órgãos vitais, para então desfrutarem da presa com tranquilidade.


Krenak falou ainda sobre como não aceitamos a morte. Se antes um indígena tinha mais de dez filhos, para que um ou dois terços sobrevivessem à idade adulta, os brancos chegaram para “corrigir a Natureza”, como se ignorantes de que não há espaço na Terra para uma população que cresce exponencialmente. Até nas áreas rurais, uma família numerosa dava aos pais uma tranquilidade – mesmo perdendo cedo alguns filhos – que os pais urbanos desconhecem. Pelo contrário, nas cidades a maioria não pode arcar sequer com três ou quatro filhos, muitos hoje sequer têm dois, por isso assistimos a uma geração que superprotege os filhos, como se envoltos por uma muralha. Os danos psicológicos desse sistema sequer são bem compreendidos, mas certamente não estão na ordem natural da mente humana.

A urbanização não muda só as famílias: muda também todo o sistema produtivo, em especial a agricultura. Sem pessoas no campo, latifundiários derrubam árvores para abrir espaço às máquinas – como se fosse esse nosso futuro natural. Máquinas caríssimas em paisagens planas e uniformes, sem animais em meio às plantações, que não conhecem mais esterco nem urina, mas crescem à base de compostos químicos pobres em nutrientes, e resultam em alimentos sem cheiro nem sabor, e de baixo poder nutritivo. Mas tudo isso é um projeto, não um acidente. Depois das revoluções comunistas, onde uma população rural forte e cheia de ideais tomou o poder dos donos do capital, foi quase automático o desenvolvimento de um projeto onde todos estes riscos seriam eliminados: o povo rural, sua força e seus ideais.

O conhecimento, seja ancestral ou moderno, mitológico ou científico, é a única arma que temos para mudar o alvo da tal “flecha do tempo”, que insiste em nos conduzir ao fim do mundo. As ciências não são inimigas dos saberes indígenas, pelo contrário. Os verdadeiros inimigos estão, como sempre, disfarçados de “santos” e “sábios”, infiltrados em instituições ilustres – igrejas e universidades – pregando a favor do monoteísmo branco, pai das monoculturas agrárias e culturais, ainda que na superfície pareçam dizer o contrário.

Apenas uma Reforma Agroecológica pode nos salvar dos que proferem palavras belas, porém falsas.



Link da conversa: https://www.youtube.com/watch?v=xeAI7GDOefg