sábado, 28 de julho de 2018
Vida de gado
O Ocidente perdeu seus valores há muito tempo porque se afastou da Natureza. Na Natureza tudo são múltiplos, nada é um. Então o monoteísmo já nasce antinatural. Precisa eliminar a concorrência, que no Oriente convive sem problemas. Eis a mãe da maioria das neuroses ocidentais, principalmente depois que o mesmo monoteísmo começou a demonizar o prazer sexual, e daí a condenar, perseguir e até proibir prazeres em geral, como o coito anal, a maioria (?) das drogas, ou mesmo o batom. Os hostilizados por essas atitudes não têm voz no púlpito que controla os jornais. Além disso, a religião molda a moral, que conduz a política. Não é questão de cada um agir bonitinho e pronto. Massa de manobra, rebanhos eleitorais, democracia desgovernada, esses são resultados do híbrido política X religião. Não é que aqui "pode tudo", mas "se perdermos a Terra, teremos outro lugar pra ir, então pra que se aborrecer? Papinho eco xiita" - essa é a "fé" monoteísta, que vem causando essa civilização apática. Por que monoteísta? Por que o resto, não-monoteísta, geralmente entende muito melhor a diferença entre mitologia e verdade. Por isso sabem debater, colocar os pontos-de-vista na mesa e procurar saber quantas patas tem o elefante. Coisa que monoteístas odeiam fazer. A ponto de, no Brasil, "não discutirmos três coisas: futebol, política e religião". E dá-lhe vida de gado!
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Cristianismo e Islamismo = Monocultura
“As causas desse
padrão ininterrupto de conflitos não estão em fenômenos
transitórios como o fervor cristão do século XII ou o
fundamentalismo muçulmano do século XX. Elas decorrem da natureza
dessas duas religiões e das civilizações nelas baseadas. Os
conflitos eram, por um lado, fruto das diferenças, especialmente da
concepção muçulmana do Islamismo como um estilo de vida que
transcendia e unia religião e política versus
a concepção cristã ocidental da separação dos reinos de Deus e
de César. Entretanto, os
conflitos também se originavam de suas similitudes. Ambas são
religiões monoteístas, que, ao contrário das politeístas, não
podem assimilar com facilidade outras divindades e que veem o mundo
em termos dualistas, de nós-e-eles. Ambas são universalistas,
afirmando serem a única fé
verdadeira à qual devem aderir todos os seres humanos. Ambas são
religiões missionárias, acreditando que seus seguidores têm a
obrigação de converter os não-crentes a essa única fé
verdadeira. Desde suas origens, o Islamismo se expandiu pela
conquista e, quando surgiram oportunidades, o mesmo se deu com o
Cristianismo. As concepções paralelas de “jihad” e de “cruzada”
não só se parecem como distinguem esses dois credos de outras
grandes religiões do mundo. O Islamismo e o Cristianismo, junto com
o Judaísmo, têm uma visão teleológica da História, em contraste
com a visão cíclica ou estática que prevalece nas outras
civilizações.”
Samuel P. Huntington, O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Ed. Objetiva, 1996. Pg. 264
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Daoísmo x Cristianismo
O taoísmo, agora chamado daoísmo, mostra como tantos de nossos valores, que
acreditamos naturais, são na verdade antinaturais. O Dao De Jing
(antes chamado Tao Te Ching ou Tao Te King) é repleto de exemplos.
Os cristãos dizem
amar o seu deus (na verdade o deus judaico), mas estão apenas
cumprindo ordens. O primeiro mandamento, antes mesmo do não matar
e não roubar, é o que obriga o fiel a amar o seu
deus sobre todas as coisas. A ameaça para os infratores é
a punição no inferno. Um deus assim é mesmo amado? Ou é, antes de
tudo, temido?
Os maiores
mestres nem eram conhecidos
depois vêm os
mestres queridos e louvados
depois os
temidos, por fim os desprezados.
—Dao De Jing 17
Para os daoístas,
Yao e Shun governavam o reino segundo o
princípio da mínima ação (wu wei) — deixavam o povo cuidar
de si mesmo, pois a Natureza é sábia e nos deu os instintos necessários
para vivermos em harmonia (afinal, somos animais sociais). Claro que
há brigas e mesmo assassinatos, mas o povo cuida melhor desses
assuntos do que qualquer casta especializada (como o nosso caríssimo,
ineficiente e corrupto judiciário).
Encha o mundo de
tabus e a pobreza se espalhará
dê às pessoas
bens e utilidades e a confusão se multiplicará
dê às pessoas
técnicas engenhosas e coisas estranhas aparecerão
faça leis e
decretos bem claros e surgirão muitos ladrões e criminosos.
Por isso governantes sensatos dizem:
eu não ajo e o povo por si só evolui
eu bem sereno e o
povo por si só se retifica
eu não me
preocupo e o povo sozinho enriquece
eu não desejo e
o povo encontra sozinho a vida simples.
—Dao De Jing 57
Yao e Shun eram
líderes exemplares, pois o povo nem precisava saber da sua
existência. Já o deus judaico-cristão (o mesmo do islamismo),
precisa ameaçar o povo com um castigo eterno, caso não seja
“amado”. Está em terceiro (ou penúltimo) lugar na lista dos
maiores mestres. É preciso mesmo um mandamento para respeitarmos o
que é bom?
Todos os seres
respeitamos a Natureza e valorizamos a Espontaneidade.
O respeito à
Natureza e o valor à Espontaneidade
não vêm de um
mandamento mas se expressam naturalmente.
—Dao De Jing 51
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tecnologia
Perguntei pra um amazônida uma vez qual a maior invenção da humanidade.
Ele não pensou dois segundos: "a rede". Por quê? perguntei. "Porque
onde você chegar com uma rede, está em casa." - ISSO é o melhor que a
tecnologia alcança. Simples, eficiente, silenciosa.
"Grandes quantidades de energia degradam as relações sociais tão inevitavelmente quanto destroem o meio físico." -- Ivan Illich, Energia e Igualdade (inglês e espanhol).
"Grandes quantidades de energia degradam as relações sociais tão inevitavelmente quanto destroem o meio físico." -- Ivan Illich, Energia e Igualdade (inglês e espanhol).
segunda-feira, 7 de maio de 2018
O mal fundamental do cristianismo, por um padre
É
interessante quando vemos um padre denunciar o mal que o cristianismo
causa, ainda que ele mesmo não perceba (talvez) o que está fazendo.
Os trechos abaixo, da introdução da tradução de Zhuang Zi pelo
padre Thomas Merton, mostram como um “bem” abstrato acaba
conduzindo seus seguidores ao fanatismo, acreditando que seguem o bem
quando na verdade praticam o mal.
Adaptação
da tradução de
A
Via de Chuang Tzu – Padre Thomas Merton
Ed.
Vozes, Petrópolis, 1984. 4a Edição.
p.
43
Toda vez que uma visão limitada e condicionada do “bem” é erigida ao nível de um absoluto, imediatamente se torna um mal, porque exclui certos elementos complementares exigidos, caso se trate de um bem autêntico. Apegar-se a uma visão parcial, a uma opinião limitada e condicionada, e considerar isso como se fosse a resposta última a todas as perguntas formuladas, é simplesmente “obscurecer o Tao” e fazer com que o indivíduo permaneça irremovivelmente no erro.
pgs.
40-41
A teoria abstrata do “amor universal”, pregada por Mo Zi [e por Cristo], foi verificada com muita agudeza por Zhuang Zi como sendo falsa, por causa da inumanidade de suas consequências. Em tese, Mo Zi [como Cristo] afirmava que todos nós, homens, deveríamos ser amados com igual amor; que o indivíduo deveria encontrar seu maior bem ao amar o bem comum de todos [ou “amar o próximo como a si mesmo”], que o amor universal seria recompensado pela tranquilidade, paz, boa ordem de todos e felicidade individual. Mas esse “amor universal” será encontrado após uma série de pesquisas (como a maioria dos outros projetos utópicos), exigindo tanto da natureza humana que é impossível que ele se torne um fato concreto e, realmente, mesmo que se tornasse, ele aleijaria e deformaria o homem, causando-lhe a ruína e a da sociedade. Não que o amor não seja bom nem natural para o homem, mas porque um sistema erigido sobre um princípio teórico e abstrato do amor ignora certas realidades fundamentais e misteriosas das quais não podemos estar conscientes, e o preço que pagamos por essa nossa ignorância é sinal de que o nosso “amor” é, de fato, um ódio.
Daí se depreende que a sociedade do “amor universal”, planejada por Mo Zi [e por Cristo], era uma sociedade de quarta classe, triste e sombria, pois toda espontaneidade era olhada com suspeita. Os prazeres humanitários e organizados da vida amigável, ritualística, musical, etc., de Confúcio, eram todos banidos por Mo Zi [como o foram tantas vezes por igrejas cristãs, e continuam sendo].
pgs.
31-32
Quanto mais procurarmos o “bem” fora de nós mesmos, como algo a ser adquirido, tanto mais somos forçados à necessidade de discutir, de estudar, de entender, de analisar a natureza do bem. Tanto mais, também, passamos a ser envolvidos em abstrações e na confusão de opiniões divergentes. Quanto mais o “bem” for analisado objetivamente, quanto mais for ele tratado como algo a ser atingido por técnicas virtuosas especiais, tanto menos real se torna. À medida que vai se tornando menos real, regride mais e mais no caminho da abstração, do porvir, da inacessibilidade. Portanto, tanto mais nos concentramos no meio a ser empregado para alcançá-lo. E, à medida que o fim vai se tornando mais remoto e mais dificultoso, torna-se mais rebuscado e complexo, até que, finalmente, o simples estudo do meio se torna tão problemático que todos os esforços devem concentrar-se nesse meio e, então, nos esquecemos do fim. Daí, pois, a nobreza do erudito confuciano [ou cristão] torna-se, na realidade, uma devoção à inutilidade sistemática de praticar meios que não conduzem a nada. Isto nada mais é, de fato, do que o desespero organizado: “o bem” pregado e teorizado pelo moralista torna-se, assim, um mal, e isso levado a um extremo cada vez maior, porque a busca desenfreada do bem desvia-o do bem verdadeiro, que já possuímos dentro de nós mesmos, e que, agora, abandonamos ou ignoramos.
quinta-feira, 15 de março de 2018
Gráficos para entender – será a religião um assunto individual?
É comum vermos
gráficos representando uma só variável, como a preferência do
eleitorado por cada candidato numa eleição.
No gráfico acima,
vemos que o candidato B é o preferido dos eleitores, seguido pelo
candidato C.
Menos comuns são
gráficos que cruzam duas variáveis, mostrando como uma influencia a
outra, ou como as duas são influenciadas ao mesmo tempo por algo
mais.
Por exemplo, a
imagem abaixo mostra como o tamanho de cada ilha afeta o número de
espécies presentes em quatro grupos animais: borboletas, morcegos,
anfíbios+répteis e aves. Cada ponto em cada gráfico representa uma
ilha. (Este estudo foi feito em ilhas do Caribe, a pesquisa original
pode
ser vista aqui.)
Como o tamanho
(área) das ilhas está no eixo X (eixo horizontal), pontos mais à
direita em cada gráfico representam ilhas maiores. Pontos à
esquerda, ilhas menores. Repare que a escala é logarítmica,
ou seja, os números aparecem como 1, 10, 100, 1000... e não como
10, 20, 30, 40... Isso serve para que objetos naturais cuja dimensão
varia muito (como ilhas), não fiquem tão distantes uns dos outros
no gráfico.
Repare também que
os pontos à esquerda geralmente estão abaixo
dos pontos à direita. Como o eixo Y (eixo vertical) representa o
número de espécies em cada ilha, isso significa que as
ilhas (pontos)
mais à esquerda tendem a ter
menos espécies que aquelas
à direita. Ou seja: ilhas maiores abrigam mais espécies, o que é
compreensível. Essa
tendência fica mais clara se adicionarmos uma linha em cada gráfico,
que passe o mais perto possível de todos os pontos daquele
gráfico – a chamada linha
de tendência.
Esse
tipo de gráfico não aparece muito em jornais e revistas populares,
mas são muito comuns quando cientistas tentam explicar
as causas de
fenômenos naturais.
No
gráfico acima, temos
várias estrelas cuja massa e luminosidade puderam
ser medidas.
Cada ponto representa uma
estrela. (O
estudo original pode
ser visto aqui.)
Podemos ver que a
luminosidade tem como causa principal a massa da estrela, ou seja,
estrelas com mais massa
brilham mais. Algo
parecido é visto
quando acendemos
dois palitos de fósforo juntos:
o brilho é maior que o de um único palito. O
Sol (massa e luminosidade = 1) se encontra no cruzamento das duas
linhas cinzas.
Também
podemos ver que a linha de tendência está mais inclinada que nos
gráficos anteriores. Isso significa que um pequeno aumento na massa
causa um aumento bem maior na luminosidade. Uma estrela com o dobro
da massa do Sol brilha cerca de dez vezes mais. Uma estrela com dez
vezes a massa do Sol brilha cerca de 10.000 vezes mais. Quanto
mais inclinada a linha de tendência (quanto mais “aponta para
cima”), maior é o efeito da primeira variável (eixo horizontal)
sobre a segunda (eixo vertical).
Podemos
ver ainda que
os pontos estão mais próximos da linha de tendência, em
comparação
com os
gráficos anteriores. Isso
porque a luminosidade de uma estrela depende
de menos fatores do que os
que regulam o número de espécies numa ilha: é
um fenômeno relativamente simples.
A ecologia de
diferentes espécies animais
envolve uma quantidade enorme
de fatores, e
ainda assim é impressionante
que tendências como as que
vimos sejam
perceptíveis.
Este
tipo de gráfico (chamado
gráfico
de dispersão) tem a
vantagem de nos permitir comparar os resultados de diferentes
pesquisas, para termos uma ideia se dois fenômenos aparentemente
distintos estão ou não relacionados.
Religião
e sexualidade
Vamos
pegar como exemplo um fenômeno complexo, a relação entre
religiosidade e sexualidade.
Para isso, analisemos o caso do
“pai” do computador, Alan Turing, um gênio que inventou uma
máquina para que os aliados pudessem decifrar as mensagens em código
usadas pelos nazistas durante a Segunda
Guerra Mundial. Essa máquina
foi o precursor dos computadores modernos, e Turing conseguiu, com
ela, dar uma grande vantagem aos aliados, reduzindo consideravelmente
o tempo da guerra e salvando milhões
de vidas.
Depois
da guerra, descobriram que ele era homossexual, e ao invés de ser
condecorado como herói, obrigaram-no a tomar hormônios que
reduzissem sua libido “imprópria”, o que culminou no
desenvolvimento de seios femininos em seu corpo. Por fim, ele foi
encontrado morto, envenenado, e ainda hoje é
debatido se foi
assassinato,
acidente ou suicídio
(referências aqui,
aqui e aqui).
A homossexualidade foi
considerada crime na Inglaterra até 1967. Se
isso não bastasse,
nos EUA o mesmo tabu persistiu até 2003, quando a Suprema Corte
finalmente aboliu leis semelhantes, que ainda perduravam em vários
estados.
Surge
então uma pergunta: nos
Estados Unidos, os estados
que em 2003 ainda consideravam o sexo homossexual um crime
o faziam devido ao moralismo
religioso? Não apenas o sexo
homossexual era considerado crime (dentro de casa e com as portas
fechadas), mas também o
sexo oral e anal entre heterossexuais. Esse excesso de pudor foi
causado por um excesso de religiosidade?
Para
tentar responder a essa pergunta, devemos procurar pesquisas sobre
religiosidade em cada estado daquele país, estados para os quais
sabemos o ano em que essas leis foram rejeitadas. Estados com uma
população mais religiosa demoraram mais para abolir essas leis?
Felizmente, esses dados podem
ser encontrados facilmente na Internet. Um
índice com a porcentagem de adultos que são “altamente
religiosos” em cada estado
pode
ser encontrado aqui. O
ano em que cada estado aboliu suas leis contra
o sexo homossexual pode
ser encontrado aqui. Unindo
ambos, temos a tabela abaixo.
Estado
dos EUA
|
Porcentagem de adultos “altamente religiosos”
|
Ano de legalização do sexo homossexual
|
Alabama
|
77
|
2003
|
Alaska
|
45
|
1980
|
Arizona
|
53
|
2001
|
Arkansas
|
70
|
2003
|
California
|
49
|
1976
|
Colorado
|
47
|
1972
|
Connecticut
|
43
|
1971
|
Delaware
|
52
|
1973
|
District of Columbia
|
53
|
1993
|
Florida
|
54
|
2003
|
Georgia
|
66
|
1998
|
Hawaii
|
47
|
1973
|
Idaho
|
51
|
2003
|
Illinois
|
51
|
1962
|
Indiana
|
54
|
1976
|
Iowa
|
55
|
1978
|
Kansas
|
55
|
2003
|
Kentucky
|
63
|
1992
|
Louisiana
|
71
|
2003
|
Maine
|
34
|
1976
|
Maryland
|
54
|
1999
|
Massachusetts
|
33
|
1974
|
Michigan
|
53
|
2003
|
Minnesota
|
49
|
2001
|
Mississippi
|
77
|
2003
|
Missouri
|
60
|
2003
|
Montana
|
48
|
1997
|
Nebraska
|
54
|
1978
|
Nevada
|
49
|
1993
|
New Hampshire
|
33
|
1975
|
New Jersey
|
55
|
1978
|
New Mexico
|
57
|
1975
|
New York
|
46
|
2000
|
North Carolina
|
65
|
2003
|
North Dakota
|
53
|
1973
|
Ohio
|
58
|
1974
|
Oklahoma
|
66
|
2003
|
Oregon
|
48
|
1972
|
Pennsylvania
|
53
|
1980
|
Rhode Island
|
49
|
1998
|
South Carolina
|
70
|
2003
|
South Dakota
|
59
|
1977
|
Tennessee
|
73
|
1996
|
Texas
|
64
|
2003
|
Utah
|
64
|
2003
|
Vermont
|
34
|
1977
|
Virginia
|
61
|
2003
|
Washington
|
45
|
1976
|
West Virginia
|
69
|
1976
|
Wisconsin
|
45
|
1983
|
Wyoming
|
54
|
1977
|
Cruzando
esses dados obtemos o gráfico abaixo.
Percebemos
claramente que a relação entre religião e homofobia é bem mais
complexa que as relações encontradas com frequência na física,
química e astronomia. Seres humanos e suas sociedades são
extremamente complexos. Ainda
assim, a relação encontrada acima, representada pela linha
diagonal, parece indicar que geralmente,
quanto mais religiosa a população de um estado, mais tempo levaram
a reconhecer que homossexuais não são criminosos, afinal.
(Infelizmente, milhões de pessoas sofreram tormentos inimagináveis
até que isso fosse finalmente
reconhecido.)
É
claro que outras variáveis
também influenciaram esse resultado, o que explica a dispersão dos
pontos para longe da linha de tendência. O estado de West Virginia,
por exemplo, representado pelo ponto WV no gráfico, embora tenha 69%
de adultos considerados “altamente religiosos” nessa pesquisa,
legalizou o sexo
entre homossexuais ainda em 1976. O que explica esse afastamento da
tendência? Talvez West Virginia tenha uma população de
homossexuais mais atuante junto ao Legislativo? Talvez algum crime ou
punição bárbara tenha influenciado a opinião pública mais cedo?
Talvez eles não fossem tão religiosos então, e sua religiosidade
aumentou mais tarde, sendo
captada agora que essa
pesquisa foi feita? Podemos levantar várias hipóteses e pesquisar
cada uma. Uma das vantagens de um gráfico como este é que ele nos
sugere novas linhas de investigação.
Outra
coisa importante é que, quando calculamos a linha de tendência (ou
melhor, quando um programa de computador a calcula para nós –
obrigado novamente, Alan Turing!), descobrimos também a chance dessa
tendência ter acontecido simplesmente por acaso. Se jogarmos essa
mesma quantidade de pontos (são 51 estados nos EUA) aleatoriamente
dentro da área do gráfico acima, observaremos resultados variados.
Observamos
que pode existir uma tendência – crescente ou decrescente – sem
que isso signifique uma relação real entre as variáveis: fruto
do mais puro acaso. Porém, a relação observada na linha de
tendência do nosso gráfico real é bem mais pronunciada que as que
vemos acima. De fato, seria preciso criar em média 25.000
gráficos aleatórios até
encontrarmos um único com
a linha de tendência tão inclinada quanto a obtida
com os nossos dados. Isso
significa que existe 1 chance em 25.000
de que os nossos dados sejam puramente casuais, ou seja, que não
exista de fato qualquer relação entre as variáveis analisadas.
A isso os cientistas chamam
um p (de
probabilidade) igual a
0.00004 (ou 4/100.000 =
1/25.000). E é por isso que
se diz que a ciência apenas aumenta a nossa confiança, sem jamais
provar nada – pois o p
nunca chega a zero (o que
seria equivalente à certeza absoluta).
Prova é um conceito
que só existe na matemática, ainda
que tantos gostem de usar
essa palavra para enganar os
desavisados.
Parece certo que a
religião influencia políticas públicas, não sendo portanto um
assunto apenas
individual.
segunda-feira, 12 de março de 2018
Ordem ou Cristianismo?
Qual a ordem
pretendida na expressão Ordem e Progresso na bandeira
brasileira? Uma ordem harmoniosa, fruto da justiça social? Ou uma
ordem opressora, que varre para baixo do tapete a injustiça social
para criar uma sociedade de fachada?
É curioso que uma
mesma pessoa se diga cristã e defenda a ordem a qualquer preço, no
sentido de manutenção de regras antigas, mesmo que essas não sejam
úteis à sociedade como um todo, mesmo que não saiba sequer
discutir sobre suas vantagens e desvantagens. Aliás, discussão já
virou sinônimo de desordem,
de
briga, para muitos!
Para esses, ordem é ausência
de debate, é um líder forte que manda e uma população recatada
que obedece bovinamente, sem sequer ter elementos para pensar
(pior: sem sequer querer
pensar).
Muitos desses
cristãos querem ordem mesmo que venha de um golpe militar, mesmo que
nos prive da frágil liberdade democrática, mesmo que permita a um
punhado de generais esconder da sociedade as
nossas mazelas (como se isso
pudesse ser escondido), fabricando assim
uma falsa harmonia, uma
falsa ordem.
Parece
que se esquecem que até o seu líder supremo, Jesus Cristo, não foi
favorável à ordem quando se tratava de uma ordem precária e
parcial. Não teve medo de dizer que César não era Deus, mesmo que
isso irritasse a ordem dominante:
Dai pois a César
o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
—Marcos 12:17, Mateus 22:21, Lucas 20:25
E sobre espalhar o
dinheiro de comerciantes no chão e virar mesas, chamariam a isso de
ordem? Ou é justamente o tipo de desordem justa, de protesto
e denúncia que são finalmente, e só assim, ouvidos pelos poderosos
(e chamados de vandalismo pela
mídia sempre servil a estes)?
Achou no templo
os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas
sentados; e tendo feito um chicote de cordas, expulsou a todos do
templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro
dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas:
Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de
negócio. —João 2:14-16
E o que dizer deste
trecho tão polêmico, onde Jesus afirma que, para que a verdade seja
finalmente conhecida (e “nos liberte”), pais e filhos deverão se
tornar inimigos? De fato, parece mesmo necessário algum grau de
dissenso quando se busca um consenso, e isso é muito diferente de
calar a boca e obedecer cegamente os mais velhos. Afinal,
ordem exige que nos calemos, exige uma ditadura, ou exige o
eterno contraditório que a presença do outro – e os direitos
do outro – nos impõem?
Não cuideis que
vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu
vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua
mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão
os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é
digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é
digno de mim. —Mateus 10:34-37
Finalmente, para
acabar com alguns mal-entendidos:
É terrível quando cristãos
usam aquela humildade fingida “mas quem sou eu para
julgar?”, como se a solução residisse em entregarmos tudo para o julgamento de juízes
milionários, descolados da realidade, em boa parte corruptos. Como se, negando nosso direito de julgar, não
estivéssemos favorecendo a corrupção e multiplicando a miséria. Não foi isso que Jesus ensinou.
E por que não
julgais também por vós mesmos o que é justo? —Lucas 12:57
Afinal, a cabeça
foi feita para pensar, e não para separar as orelhas, como diz o
ditado.
E para aqueles que
acreditam que um Bolsonaro ou um Feliciano, um Macedo ou um Santiago,
são mesmo seguidores de Cristo, lembrem-se de ler a Bíblia com
atenção, e se não entenderem alguma parte, perguntem!
Assim, pois,
qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser
meu discípulo. —Lucas 14:33
Não sigo a Bíblia
nem sou cristão, pelo contrário, considero o monoteísmo (seja
judaico, cristão ou muçulmano) um grande mal, pela maneira como desdenha o que é diferente, como
aceita em silêncio a
destruição de tudo que é diferente. Ou seja, historicamente o monoteísmo tem eliminado todo tipo de
diversidade, posição incompatível com a democracia. A propósito,
a democracia não foi possível graças ao Cristianismo, como muitos
dizem, muito pelo contrário, ela foi fruto do Iluminismo, um
movimento que usou a razão, a filosofia e a ciência para combater as visões dogmáticas
derivadas da Bíblia. Iluminismo hoje atacado dentro das próprias
universidades pelo chamado “movimento posmoderno” (outra invenção
judaica?), que tem devolvido ao monoteísmo o poder que vinha
perdendo ao longo do século XX, e que tem colocado a própria democracia em
xeque, para alegria daqueles que puxam as cordas por trás das
cortinas.
Coloquei aqui
algumas passagens para mostrar as contradições que tantos cristãos
cometem com frequência. Embora a própria Bíblia sempre dê um
jeitinho em tudo e, por fim, force seus seguidores a perdoarem todos
os corruptos, todos os incoerentes e mentirosos, todos os ladrões do Estado e do
povo, sob a ameaça de punição eterna no inferno:
E perdoa-nos as
nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores
—Mateus 6:12
E perdoa-nos os
nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve
—Lucas 11:4
ou como eu aprendi
ainda criança:
Perdoai as nossas
ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Quem não perdoa a
quem nos ofendeu (políticos e empresários corruptos incluídos)
será perdoado? E o que acontece com quem não é perdoado?
Será que preciso desenhar?
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