sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Kashmir - Led Zeppelin

Ah, deixa o Sol bater no meu rosto
e estrelas encherem meu sonho
Sou um viajante do tempo e do espaço
Para estar onde já estive
Sentar com anciões da raça gentil
que este mundo mal viu
Eles falam de dias que aguardam sentados
Tudo será revelado

***



Eu não tinha ainda prestado atenção nessa letra.

De fato, nossa civilização elétrica e hipocondríaca mal tem parado para cheirar as flores, já chamam a isso logo de "viadagem", num sinistro prenúncio do nem tão estúpido filme Idiocracy (2006).

Perder tempo "viajando o espaço e o tempo"? "Deixando o sol bater no rosto"? "Andando à toa"? "Tudo é trabalho", "devemos ser produtivos", "vagabundo bom é vagabundo morto", "O trabalho enobrece"*...

Esse mundo mal viu a raça gentil, não ouviu suas conversas sobre as melhores formas de se aproveitar a vida, ou qualquer outro assunto; mesmo tendo rádio, telefone e tv a cabo. Ou talvez justamente por isso.

Nada foi ainda revelado.

E se alguns deuses andam ainda em caminhos misteriosos
é também porque a Natureza é misteriosa.



* ARBEIT MACHT FREI ou "o trabalho liberta", frase inscrita nos campos de concentração nazistas, onde os presos trabalhavam até morrer.

sábado, 28 de julho de 2018

Vida de gado

O Ocidente perdeu seus valores há muito tempo porque se afastou da Natureza. Na Natureza tudo são múltiplos, nada é um. Então o monoteísmo já nasce antinatural. Precisa eliminar a concorrência, que no Oriente convive sem problemas. Eis a mãe da maioria das neuroses ocidentais, principalmente depois que o mesmo monoteísmo começou a demonizar o prazer sexual, e daí a condenar, perseguir e até proibir prazeres em geral, como o coito anal, a maioria (?) das drogas, ou mesmo o batom. Os hostilizados por essas atitudes não têm voz no púlpito que controla os jornais. Além disso, a religião molda a moral, que conduz a política. Não é questão de cada um agir bonitinho e pronto. Massa de manobra, rebanhos eleitorais, democracia desgovernada, esses são resultados do híbrido política X religião. Não é que aqui "pode tudo", mas "se perdermos a Terra, teremos outro lugar pra ir, então pra que se aborrecer? Papinho eco xiita" - essa é a "fé" monoteísta, que vem causando essa civilização apática. Por que monoteísta? Por que o resto, não-monoteísta, geralmente entende muito melhor a diferença entre mitologia e verdade. Por isso sabem debater, colocar os pontos-de-vista na mesa e procurar saber quantas patas tem o elefante. Coisa que monoteístas odeiam fazer. A ponto de, no Brasil, "não discutirmos três coisas: futebol, política e religião". E dá-lhe vida de gado!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Cristianismo e Islamismo = Monocultura


“As causas desse padrão ininterrupto de conflitos não estão em fenômenos transitórios como o fervor cristão do século XII ou o fundamentalismo muçulmano do século XX. Elas decorrem da natureza dessas duas religiões e das civilizações nelas baseadas. Os conflitos eram, por um lado, fruto das diferenças, especialmente da concepção muçulmana do Islamismo como um estilo de vida que transcendia e unia religião e política versus a concepção cristã ocidental da separação dos reinos de Deus e de César. Entretanto, os conflitos também se originavam de suas similitudes. Ambas são religiões monoteístas, que, ao contrário das politeístas, não podem assimilar com facilidade outras divindades e que veem o mundo em termos dualistas, de nós-e-eles. Ambas são universalistas, afirmando serem a única fé verdadeira à qual devem aderir todos os seres humanos. Ambas são religiões missionárias, acreditando que seus seguidores têm a obrigação de converter os não-crentes a essa única fé verdadeira. Desde suas origens, o Islamismo se expandiu pela conquista e, quando surgiram oportunidades, o mesmo se deu com o Cristianismo. As concepções paralelas de “jihad” e de “cruzada” não só se parecem como distinguem esses dois credos de outras grandes religiões do mundo. O Islamismo e o Cristianismo, junto com o Judaísmo, têm uma visão teleológica da História, em contraste com a visão cíclica ou estática que prevalece nas outras civilizações.”

Samuel P. Huntington, O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Ed. Objetiva, 1996. Pg. 264

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Daoísmo x Cristianismo


O taoísmo, agora chamado daoísmo, mostra como tantos de nossos valores, que acreditamos naturais, são na verdade antinaturais. O Dao De Jing (antes chamado Tao Te Ching ou Tao Te King) é repleto de exemplos.

Os cristãos dizem amar o seu deus (na verdade o deus judaico), mas estão apenas cumprindo ordens. O primeiro mandamento, antes mesmo do não matar e não roubar, é o que obriga o fiel a amar o seu deus sobre todas as coisas. A ameaça para os infratores é a punição no inferno. Um deus assim é mesmo amado? Ou é, antes de tudo, temido?

Os maiores mestres nem eram conhecidos
depois vêm os mestres queridos e louvados
depois os temidos, por fim os desprezados.
—Dao De Jing 17

Para os daoístas, Yao e Shun governavam o reino segundo o princípio da mínima ação (wu wei) — deixavam o povo cuidar de si mesmo, pois a Natureza é sábia e nos deu os instintos necessários para vivermos em harmonia (afinal, somos animais sociais). Claro que há brigas e mesmo assassinatos, mas o povo cuida melhor desses assuntos do que qualquer casta especializada (como o nosso caríssimo, ineficiente e corrupto judiciário).

Encha o mundo de tabus e a pobreza se espalhará
dê às pessoas bens e utilidades e a confusão se multiplicará
dê às pessoas técnicas engenhosas e coisas estranhas aparecerão
faça leis e decretos bem claros e surgirão muitos ladrões e criminosos.
Por isso governantes sensatos dizem:
eu não ajo e o povo por si só evolui
eu bem sereno e o povo por si só se retifica
eu não me preocupo e o povo sozinho enriquece
eu não desejo e o povo encontra sozinho a vida simples.
—Dao De Jing 57

Yao e Shun eram líderes exemplares, pois o povo nem precisava saber da sua existência. Já o deus judaico-cristão (o mesmo do islamismo), precisa ameaçar o povo com um castigo eterno, caso não seja “amado”. Está em terceiro (ou penúltimo) lugar na lista dos maiores mestres. É preciso mesmo um mandamento para respeitarmos o que é bom?

Todos os seres respeitamos a Natureza e valorizamos a Espontaneidade.
O respeito à Natureza e o valor à Espontaneidade
não vêm de um mandamento mas se expressam naturalmente.
—Dao De Jing 51

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tecnologia

Perguntei pra um amazônida uma vez qual a maior invenção da humanidade. Ele não pensou dois segundos: "a rede". Por quê? perguntei. "Porque onde você chegar com uma rede, está em casa." - ISSO é o melhor que a tecnologia alcança. Simples, eficiente, silenciosa.



"Grandes quantidades de energia degradam as relações sociais tão inevitavelmente quanto destroem o meio físico." -- Ivan Illich, Energia e Igualdade (inglês e espanhol).

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O mal fundamental do cristianismo, por um padre


É interessante quando vemos um padre denunciar o mal que o cristianismo causa, ainda que ele mesmo não perceba (talvez) o que está fazendo. Os trechos abaixo, da introdução da tradução de Zhuang Zi pelo padre Thomas Merton, mostram como um “bem” abstrato acaba conduzindo seus seguidores ao fanatismo, acreditando que seguem o bem quando na verdade praticam o mal.

Adaptação da tradução de
A Via de Chuang Tzu – Padre Thomas Merton
Ed. Vozes, Petrópolis, 1984. 4a Edição.

p. 43

Toda vez que uma visão limitada e condicionada do “bem” é erigida ao nível de um absoluto, imediatamente se torna um mal, porque exclui certos elementos complementares exigidos, caso se trate de um bem autêntico. Apegar-se a uma visão parcial, a uma opinião limitada e condicionada, e considerar isso como se fosse a resposta última a todas as perguntas formuladas, é simplesmente “obscurecer o Tao” e fazer com que o indivíduo permaneça irremovivelmente no erro.

pgs. 40-41

A teoria abstrata do “amor universal”, pregada por Mo Zi [e por Cristo], foi verificada com muita agudeza por Zhuang Zi como sendo falsa, por causa da inumanidade de suas consequências. Em tese, Mo Zi [como Cristo] afirmava que todos nós, homens, deveríamos ser amados com igual amor; que o indivíduo deveria encontrar seu maior bem ao amar o bem comum de todos [ou “amar o próximo como a si mesmo”], que o amor universal seria recompensado pela tranquilidade, paz, boa ordem de todos e felicidade individual. Mas esse “amor universal” será encontrado após uma série de pesquisas (como a maioria dos outros projetos utópicos), exigindo tanto da natureza humana que é impossível que ele se torne um fato concreto e, realmente, mesmo que se tornasse, ele aleijaria e deformaria o homem, causando-lhe a ruína e a da sociedade. Não que o amor não seja bom nem natural para o homem, mas porque um sistema erigido sobre um princípio teórico e abstrato do amor ignora certas realidades fundamentais e misteriosas das quais não podemos estar conscientes, e o preço que pagamos por essa nossa ignorância é sinal de que o nosso “amor” é, de fato, um ódio.

Daí se depreende que a sociedade do “amor universal”, planejada por Mo Zi [e por Cristo], era uma sociedade de quarta classe, triste e sombria, pois toda espontaneidade era olhada com suspeita. Os prazeres humanitários e organizados da vida amigável, ritualística, musical, etc., de Confúcio, eram todos banidos por Mo Zi [como o foram tantas vezes por igrejas cristãs, e continuam sendo].

pgs. 31-32

Quanto mais procurarmos o “bem” fora de nós mesmos, como algo a ser adquirido, tanto mais somos forçados à necessidade de discutir, de estudar, de entender, de analisar a natureza do bem. Tanto mais, também, passamos a ser envolvidos em abstrações e na confusão de opiniões divergentes. Quanto mais o “bem” for analisado objetivamente, quanto mais for ele tratado como algo a ser atingido por técnicas virtuosas especiais, tanto menos real se torna. À medida que vai se tornando menos real, regride mais e mais no caminho da abstração, do porvir, da inacessibilidade. Portanto, tanto mais nos concentramos no meio a ser empregado para alcançá-lo. E, à medida que o fim vai se tornando mais remoto e mais dificultoso, torna-se mais rebuscado e complexo, até que, finalmente, o simples estudo do meio se torna tão problemático que todos os esforços devem concentrar-se nesse meio e, então, nos esquecemos do fim. Daí, pois, a nobreza do erudito confuciano [ou cristão] torna-se, na realidade, uma devoção à inutilidade sistemática de praticar meios que não conduzem a nada. Isto nada mais é, de fato, do que o desespero organizado: “o bem” pregado e teorizado pelo moralista torna-se, assim, um mal, e isso levado a um extremo cada vez maior, porque a busca desenfreada do bem desvia-o do bem verdadeiro, que já possuímos dentro de nós mesmos, e que, agora, abandonamos ou ignoramos.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Gráficos para entender – será a religião um assunto individual?


É comum vermos gráficos representando uma só variável, como a preferência do eleitorado por cada candidato numa eleição.


No gráfico acima, vemos que o candidato B é o preferido dos eleitores, seguido pelo candidato C.

Menos comuns são gráficos que cruzam duas variáveis, mostrando como uma influencia a outra, ou como as duas são influenciadas ao mesmo tempo por algo mais.

Por exemplo, a imagem abaixo mostra como o tamanho de cada ilha afeta o número de espécies presentes em quatro grupos animais: borboletas, morcegos, anfíbios+répteis e aves. Cada ponto em cada gráfico representa uma ilha. (Este estudo foi feito em ilhas do Caribe, a pesquisa original pode ser vista aqui.)


Como o tamanho (área) das ilhas está no eixo X (eixo horizontal), pontos mais à direita em cada gráfico representam ilhas maiores. Pontos à esquerda, ilhas menores. Repare que a escala é logarítmica, ou seja, os números aparecem como 1, 10, 100, 1000... e não como 10, 20, 30, 40... Isso serve para que objetos naturais cuja dimensão varia muito (como ilhas), não fiquem tão distantes uns dos outros no gráfico.

Repare também que os pontos à esquerda geralmente estão abaixo dos pontos à direita. Como o eixo Y (eixo vertical) representa o número de espécies em cada ilha, isso significa que as ilhas (pontos) mais à esquerda tendem a ter menos espécies que aquelas à direita. Ou seja: ilhas maiores abrigam mais espécies, o que é compreensível. Essa tendência fica mais clara se adicionarmos uma linha em cada gráfico, que passe o mais perto possível de todos os pontos daquele gráfico – a chamada linha de tendência.


Esse tipo de gráfico não aparece muito em jornais e revistas populares, mas são muito comuns quando cientistas tentam explicar as causas de fenômenos naturais.


No gráfico acima, temos várias estrelas cuja massa e luminosidade puderam ser medidas. Cada ponto representa uma estrela. (O estudo original pode ser visto aqui.) Podemos ver que a luminosidade tem como causa principal a massa da estrela, ou seja, estrelas com mais massa brilham mais. Algo parecido é visto quando acendemos dois palitos de fósforo juntos: o brilho é maior que o de um único palito. O Sol (massa e luminosidade = 1) se encontra no cruzamento das duas linhas cinzas.

Também podemos ver que a linha de tendência está mais inclinada que nos gráficos anteriores. Isso significa que um pequeno aumento na massa causa um aumento bem maior na luminosidade. Uma estrela com o dobro da massa do Sol brilha cerca de dez vezes mais. Uma estrela com dez vezes a massa do Sol brilha cerca de 10.000 vezes mais. Quanto mais inclinada a linha de tendência (quanto mais “aponta para cima”), maior é o efeito da primeira variável (eixo horizontal) sobre a segunda (eixo vertical).

Podemos ver ainda que os pontos estão mais próximos da linha de tendência, em comparação com os gráficos anteriores. Isso porque a luminosidade de uma estrela depende de menos fatores do que os que regulam o número de espécies numa ilha: é um fenômeno relativamente simples. A ecologia de diferentes espécies animais envolve uma quantidade enorme de fatores, e ainda assim é impressionante que tendências como as que vimos sejam perceptíveis.

Este tipo de gráfico (chamado gráfico de dispersão) tem a vantagem de nos permitir comparar os resultados de diferentes pesquisas, para termos uma ideia se dois fenômenos aparentemente distintos estão ou não relacionados.

Religião e sexualidade

Vamos pegar como exemplo um fenômeno complexo, a relação entre religiosidade e sexualidade. Para isso, analisemos o caso do “pai” do computador, Alan Turing, um gênio que inventou uma máquina para que os aliados pudessem decifrar as mensagens em código usadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Essa máquina foi o precursor dos computadores modernos, e Turing conseguiu, com ela, dar uma grande vantagem aos aliados, reduzindo consideravelmente o tempo da guerra e salvando milhões de vidas.

Depois da guerra, descobriram que ele era homossexual, e ao invés de ser condecorado como herói, obrigaram-no a tomar hormônios que reduzissem sua libido “imprópria”, o que culminou no desenvolvimento de seios femininos em seu corpo. Por fim, ele foi encontrado morto, envenenado, e ainda hoje é debatido se foi assassinato, acidente ou suicídio (referências aqui, aqui e aqui). A homossexualidade foi considerada crime na Inglaterra até 1967. Se isso não bastasse, nos EUA o mesmo tabu persistiu até 2003, quando a Suprema Corte finalmente aboliu leis semelhantes, que ainda perduravam em vários estados.

Surge então uma pergunta: nos Estados Unidos, os estados que em 2003 ainda consideravam o sexo homossexual um crime o faziam devido ao moralismo religioso? Não apenas o sexo homossexual era considerado crime (dentro de casa e com as portas fechadas), mas também o sexo oral e anal entre heterossexuais. Esse excesso de pudor foi causado por um excesso de religiosidade?

Para tentar responder a essa pergunta, devemos procurar pesquisas sobre religiosidade em cada estado daquele país, estados para os quais sabemos o ano em que essas leis foram rejeitadas. Estados com uma população mais religiosa demoraram mais para abolir essas leis? Felizmente, esses dados podem ser encontrados facilmente na Internet. Um índice com a porcentagem de adultos que são “altamente religiosos” em cada estado pode ser encontrado aqui. O ano em que cada estado aboliu suas leis contra o sexo homossexual pode ser encontrado aqui. Unindo ambos, temos a tabela abaixo.

Estado dos EUA
Porcentagem de adultos “altamente religiosos”
Ano de legalização do sexo homossexual
Alabama
77
2003
Alaska
45
1980
Arizona
53
2001
Arkansas
70
2003
California
49
1976
Colorado
47
1972
Connecticut
43
1971
Delaware
52
1973
District of Columbia
53
1993
Florida
54
2003
Georgia
66
1998
Hawaii
47
1973
Idaho
51
2003
Illinois
51
1962
Indiana
54
1976
Iowa
55
1978
Kansas
55
2003
Kentucky
63
1992
Louisiana
71
2003
Maine
34
1976
Maryland
54
1999
Massachusetts
33
1974
Michigan
53
2003
Minnesota
49
2001
Mississippi
77
2003
Missouri
60
2003
Montana
48
1997
Nebraska
54
1978
Nevada
49
1993
New Hampshire
33
1975
New Jersey
55
1978
New Mexico
57
1975
New York
46
2000
North Carolina
65
2003
North Dakota
53
1973
Ohio
58
1974
Oklahoma
66
2003
Oregon
48
1972
Pennsylvania
53
1980
Rhode Island
49
1998
South Carolina
70
2003
South Dakota
59
1977
Tennessee
73
1996
Texas
64
2003
Utah
64
2003
Vermont
34
1977
Virginia
61
2003
Washington
45
1976
West Virginia
69
1976
Wisconsin
45
1983
Wyoming
54
1977

Cruzando esses dados obtemos o gráfico abaixo.


Percebemos claramente que a relação entre religião e homofobia é bem mais complexa que as relações encontradas com frequência na física, química e astronomia. Seres humanos e suas sociedades são extremamente complexos. Ainda assim, a relação encontrada acima, representada pela linha diagonal, parece indicar que geralmente, quanto mais religiosa a população de um estado, mais tempo levaram a reconhecer que homossexuais não são criminosos, afinal. (Infelizmente, milhões de pessoas sofreram tormentos inimagináveis até que isso fosse finalmente reconhecido.)

É claro que outras variáveis também influenciaram esse resultado, o que explica a dispersão dos pontos para longe da linha de tendência. O estado de West Virginia, por exemplo, representado pelo ponto WV no gráfico, embora tenha 69% de adultos considerados “altamente religiosos” nessa pesquisa, legalizou o sexo entre homossexuais ainda em 1976. O que explica esse afastamento da tendência? Talvez West Virginia tenha uma população de homossexuais mais atuante junto ao Legislativo? Talvez algum crime ou punição bárbara tenha influenciado a opinião pública mais cedo? Talvez eles não fossem tão religiosos então, e sua religiosidade aumentou mais tarde, sendo captada agora que essa pesquisa foi feita? Podemos levantar várias hipóteses e pesquisar cada uma. Uma das vantagens de um gráfico como este é que ele nos sugere novas linhas de investigação.

Outra coisa importante é que, quando calculamos a linha de tendência (ou melhor, quando um programa de computador a calcula para nós – obrigado novamente, Alan Turing!), descobrimos também a chance dessa tendência ter acontecido simplesmente por acaso. Se jogarmos essa mesma quantidade de pontos (são 51 estados nos EUA) aleatoriamente dentro da área do gráfico acima, observaremos resultados variados.


Observamos que pode existir uma tendência – crescente ou decrescente – sem que isso signifique uma relação real entre as variáveis: fruto do mais puro acaso. Porém, a relação observada na linha de tendência do nosso gráfico real é bem mais pronunciada que as que vemos acima. De fato, seria preciso criar em média 25.000 gráficos aleatórios até encontrarmos um único com a linha de tendência tão inclinada quanto a obtida com os nossos dados. Isso significa que existe 1 chance em 25.000 de que os nossos dados sejam puramente casuais, ou seja, que não exista de fato qualquer relação entre as variáveis analisadas. A isso os cientistas chamam um p (de probabilidade) igual a 0.00004 (ou 4/100.000 = 1/25.000). E é por isso que se diz que a ciência apenas aumenta a nossa confiança, sem jamais provar nada – pois o p nunca chega a zero (o que seria equivalente à certeza absoluta). Prova é um conceito que só existe na matemática, ainda que tantos gostem de usar essa palavra para enganar os desavisados.

Parece certo que a religião influencia políticas públicas, não sendo portanto um assunto apenas individual.