sexta-feira, 28 de abril de 2017

Confúcio e Laozi


Confúcio visitou Laozi, e falou sobre a caridade e o dever para com o próximo.

Disse Laozi: “O farelo da peneira cega os olhos de um homem, de modo que ele não pode ver em torno. Os mosquitos mantêm uma pessoa acordada a noite inteira com as suas picadas. E do mesmo modo, essa conversa de caridade e dever para com o próximo quase me leva à loucura. Senhor! Esforça-te para conservar o mundo em sua simplicidade original. E do mesmo modo que o vento sopra onde lhe apraz, deixa a virtude ela própria se firmar. Para que desperdiçar tanta energia, procurando um fugitivo com um grande tambor?

“O cisne branco é branco sem se banhar diariamente. O corvo é negro sem se pintar diariamente. A simplicidade original do branco e do negro está além dos limites da argumentação. A perspectiva da fama e da reputação não é digna de ampliação. Quando a lagoa seca e os peixes são deixados na terra, umedecê-los com um sopro ou molhá-los com cuspe não se compara com deixá-los em seus rios e lagos nativos.”

Regressando de sua visita a Laozi, Confúcio se manteve em silêncio durante três dias. Um discípulo perguntou-lhe: “Mestre, quando viste Laozi, como o advertiste?”

“Vi um dragão”, respondeu Confúcio. “Um dragão que pela convergência mostrava um corpo, pela radiação tornava-se cor e correndo para as nuvens do céu alimentava os dois princípios da criação. Fiquei boquiaberto. Como pensas, então, que eu fosse advertir Laozi?”


Lao Tze e Chuang Tze – A Essência do Taoísmo
Trad. David Jardim Jr.
Ediouro 1985

quinta-feira, 27 de abril de 2017

História do Brasil em um parágrafo

"Quando um país é, em larga medida, posse de estrangeiros, a demanda social pela expropriação é recorrente e quase irreprimível. Outros atores do quadro político respondem que somente a proteção incondicional dos direitos de propriedade originais garante um ambiente adequado para o investimento e o desenvolvimento. O país se encontra, desse modo, preso numa interminável alternância entre governos revolucionários (cujo sucesso na promoção de melhorias na qualidade de vida de seu povo é, muitas vezes, limitado) e governos que protegem os interesses dos proprietários existentes enquanto preparam a próxima revolução ou golpe de Estado."

Thomas Piketty - O Capital no Século XXI - Ed. Intrínseca - 2014 - Pág. 75.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Bancos públicos promovem mais crescimento?


Lendo uma reportagem no Intercept Brasil, lembrei de um comentário feito há alguns anos por um colega economista no Facebook. Ele dizia que os países que mais crescem economicamente (maior aumento do PIB) geralmente têm a maioria dos bancos públicos.

Sua tese fazia sentido. Afinal, sabemos que boa parte do capital mundial é puramente especulativo, e os "magos das finanças" são especialistas em multiplicar números no computador, engordando suas contas bancárias sem nenhum retorno para a sociedade. Assim, quando deparados com a opção entre investir no crescimento do país ou em investimentos parasitários, espera-se que os bancos privados escolham o que der mais lucro.

Outros já falaram sobre isso, como o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega em 2012 e a advogada e presidente do Public Banking Institute, Ellen Brown, em 2011.

E, claro, há os que dizem o contrário, como este artigo no Journal of Finance, de 2002. Curiosamente, os autores afirmam logo no resumo que "higher government ownership of banks in 1970 is associated with slower subsequent financial development and lower growth of per capita income and productivity". Por que usam dados defasados em 32 anos para defender sua tese ainda é um mistério para mim.

Mas os números confirmam essa tese, ou teoria, ou hipótese?

Em primeiro lugar, vamos ao poder econômico das grandes nações. Antigamente, o G7 era o grupo das economias que dominavam o planeta: Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Alemanha, França, Canadá e Itália. Em 2014, porém, um novo G7 surgiu: China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia. Em termos de Paridade do Poder de Compra (que mede não o dinheiro no país, mas o que ele pode comprar), o novo G7 ganharia do anterior por 37,8 a 34,5 trilhões de dólares.

Uma pesquisa de 2013 reuniu alguns dados básicos sobre os bancos de 143 países. Quantos % dos bancos são públicos em cada um desses países? No antigo G7 temos: Estados Unidos (0%), Japão (sem dados), Inglaterra (26%), Alemanha (32%), França (2%), Canadá (0%) e Itália (0,1%). No novo G7 temos: China (sem dados), Índia (74%), Brasil (44%), Rússia (41%), México (13%), Indonésia (38%) e Turquia (32%). Acho que não é preciso calcular a média para ver a diferença. Mas para os perfeccionistas de plantão: antigo G7 média de 10,02%, novo G7 média de 40,33%. (PS extraído da pesquisa, página 7: "China did not respond to this question, but available information indicates the figure exceeds 90 percent. In the 2007 survey China did respond and reported the share was slightly less than 70 percent, but this only captured the four big state owned banks. The figure exceeds 90 percent even earlier if one includes all state or government owned banks".)

O gráfico a seguir, com dados do Banco Mundial, mostra o crescimento (e decrescimento) de alguns desses países entre 1960 e 2014:


Vemos os EUA, que em 1960 detinham 40% do PIB mundial, caírem para 22% em 2014. A China cresceu de menos de 2% para cerca de 13% em 20 anos, enquanto as nações do antigo G7 mostraram quedas consideráveis, especialmente o Japão, que caiu de 17,5% para 6% nos mesmos 20 anos. Alemanha, França e Grã-Bretanha também apresentaram queda, embora menos drástica. Já o Brasil apresentou um crescimento espetacular nos últimos anos, de cerca de 1,5% do PIB mundial em 2003 para 3,5% em 2011. A queda posterior, de 3,5% para 3,0% entre 2011 e 2014, foi muito menor que a "quebra do país" alardeada pela grande imprensa, principalmente quando comparada com o segundo mandato do "príncipe da privataria" Fernando Henrique Cardoso (1998-2002).

Mas esses dados ainda não são o bastante para testarmos nossa hipótese de que uma maioria de bancos públicos são saudáveis para o crescimento dos países. O gráfico abaixo relaciona todos os países para os quais temos dados, unindo a pesquisa de 2013 citada acima (com dados de 2011) com os dados sobre crescimento do Banco Mundial (para todos os anos entre 1961 e 2015). Como não entendemos exatamente como se dá a relação entre a propriedade dos bancos e o crescimento, usamos os dados de crescimento de 2008 a 2013, cruzando-os sempre com os dados bancários de 2011.

2008





A diferença entre os gráficos acima é que na esquerda estão presentes todos os países com dados disponíveis, enquanto na direita foi retirado o Zimbabwe, que apresentou um decréscimo atípico (o chamado outlier). Nos dois casos a relação positiva (quanto maior a % de bancos públicos, maior o crescimento do PIB) foi significativa (p < 0,03, ou seja, há uma chance de menos de 3% de que esses dados sejam mera coincidência -- digamos, apenas jogando números aleatoriamente numa tabela).

2009

Aqui não há outliers, e novamente se observa a relação positiva e significativa (p < 0,04) entre as variáveis estudadas. A linha de tendência, em vermelho, corta o eixo Y abaixo do zero (como pode ser visto na fórmula "+ -2,0699"), nos lembrando da quebradeira mundial que assistimos após os escândalos financeiros de 2008 (onde ninguém foi punido).

2010

Aqui o outlier no gráfico da esquerda foi Macao, com um crescimento bastante atípico. No gráfico da direita Macao foi removida. Antes da remoção, a relação era mais fraca e menos significativa (p < 0,05), após a remoção se tornou mais forte e mais significativa (p < 0,01).

2011


Com todos os países, a relação não é significativa o bastante (p > 0,10). Mas uma vez retirados os dois outliers mais evidentes, Macao com um crescimento bastante atípico, e a Grécia com um decréscimo atípico, a relação se torna outra vez bastante significativa (p < 0,02).

2012



De 2012 em diante a situação deixa de ser significativa, incluídos (p > 0,13) ou excluídos (p > 0,26) os outliers, a saber: Serra Leoa com um crescimento atípico e novamente a Grécia com decréscimo atípico.

Evidente que esses dados não encerram o assunto, há muitas outras variáveis envolvidas, e ainda não há explicação para o fato de dados bancários de 2011 se correlacionarem tão bem com dados do PIB de 2008, mas não com os de 2012. A não ser que tenha havido mais mudanças entre 2011 e 2012 do que entre 2008 e 2011, o que parece pouco provável (mas não impossível). Um estudo mais aprofundado poderia ajudar a esclarecer essas e outras questões.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Falsa ciência


CDC trabalha em conluio com fabricantes de vacinas ... você pode realmente confiar nesta "falsa ciência?"

1. Isto não é “ciência” é apenas política.

2. É sim, falsa ciência, sem aspas.
Acho que a definição dos termos, a definição das expressões, das palavras usadas, deve ser o primeiro passo para uma política honesta, como já disse Confúcio.
Acho que verdade é dizer que é aquilo que é, e dizer que não é aquilo que não é, como já disse Aristóteles.
Acho que conhecer a verdade é uma vã ilusão humana, e no entanto é o Norte para quem se diz honesto e/ou honesta.
Há ilusões e mentiras que agradam a todo mundo. E outras que são infantis. Mas o que separa crianças de adultos é a coragem de buscar entender a verdade. Será por isso sermos hoje tão crianças?
Acho que em diferentes épocas houve diferentes formas e pressões ao se buscar a verdade. Como hoje há uma minoria que já jogou essa palavra – verdadena lixeira. E ai de quem chegar perto.
Assim uma política sem ciência é como uma ciência sem filosofia, como uma filosofia sem ciência... uma linguagem sem objeto, uma subjetividade sem objetividade, um Eu sem o Outro, um nós sem nada, um algo no vácuo – sem ser a Terra no Espaço, Nosso Lar no Desconhecido, A Unidade Real no Multiverso.

3. Para não entrar no mérito do exposto, que não seria novidade.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Arte de Escrever

É fácil desmascarar certos impostores pela forma como escrevem. Schopenhauer já nos alertou sobre isso nos textos publicados no Brasil sob o título A Arte de Escrever. Para não me estender demais, vou aqui apenas dar um exemplo.

Bom escritor:

O céu é azul.

Mau escritor:

A abóbada que nos recobre o vasto mundo, desde o nascente até o poente e passando por todas as áreas habitadas ou não, é de tal forma ampla que poderíamos levar toda a vida a percorrê-la, sem ainda nos dar conta de sua real extensão - tal é o chamado céu, cuja cor à primeira vista pode parecer óbvia, contudo suas nuances são várias, tênues e delicadas, mudando conforme a estação e o horário do dia, e ainda assim há um tom predominante, ou pelo menos é o que nosso imperfeito aparato sensorial nos permite supor, e mesmo aqui haverá sempre espaço para interpretações diferentes e difusas, pois a variedade da experiência humana nos leva a crer que tudo é relativo, que somos todos diferentes, embora iguais, ou nem mesmo iguais, mas apenas diferentes, assim a cor que vemos pode não ser a mesma que veem nossos irmãos, ou os povos de outros continentes, ou quem sabe a cor é a mesma, mas as palavras para defini-las variam, ou sendo as cores diferentes, convencionou-se usar os mesmos nomes às vezes por mero hábito de imitação, outras vezes por violenta imposição, de tal forma que nem mesmo os povos mais isolados e puros - se é que tal adjetivo pode ser usado - estarão livres da dúvida sobre a origem dos termos que usam, se são mesmo seus ou se pertencem a outrém, e é por isso que não podemos jamais estar certos da cor exata a que nos referimos quando queremos falar sobre a cor que vemos todos os dias, ou quase todos, pois há também os dias chuvosos e os de nevasca, os nublados e os pálidos, isso sem falar no nosso próprio estado de espírito, onde a melancolia mais profunda acentua os tons sombrios, modificando o matiz para o lado negativo, inferior ou maligno do espectro, e igualmente a alegria, a excitação e o otimismo acentuam os tons claros, forçando os matizes positivos, superiores ou benignos; desta forma... do que é que estávamos falando mesmo?

PS: Tirando o lapso de honestidade da última pegunta, o resto dá uma ideia clara do tipo de escritores a que me refiro. Infelizmente esse tipo parece dominar nossas universidades, dando dor de cabeça aos estudantes quando deveriam dar-lhes educação. Voltarei a esse assunto tratando dos tipos de falácia que tenho visto (além da prolixidade, claro).

Acharam o exemplo exagerado? Leiam Schopenhauer, que já denunciava esses tipos há mais de 150 anos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A importância do rural


Na série de vídeos Zeitgeist, um futuro altamente tecnológico é proposto como parte da solução para nossos problemas atuais. Robôs cuidariam de áreas rurais, e parte dos alimentos poderia ser produzida em tubos com nutrientes artificiais nos edifícios urbanos, entre outros cenários mais ou menos factíveis. Creio, porém, que essa proposta não é nem a mais simples, nem a mais viável no longo prazo.

Em primeiro lugar, evoluímos em contato com a Natureza, e esse contato é parte integrante de nós ainda hoje, sendo uma fonte inata de prazer. Edward Wilson chamou esse sentimento de biofilia, uma apreciação pela Natureza em si, por suas formas, cores, cheiros, sons... Uma evidência disso é que aqueles que têm dinheiro bastante costumam escolher casas com belas áreas verdes para morar. Também costumam ter piscinas em casa, o que corrobora a teoria de que evoluímos passando muito tempo na água (o que explica não só a nossa perda de pêlos, mas também a habilidade dos recém-nascidos de nadarem habilmente, mesmo depois de cortado o cordão umbilical).

Se podemos nos afastar da Natureza e morar “felizes” em amontoados urbanos – sejam favelas ou edifícios com vista para outros edifícios – se nossos instintos são desprezíveis, e a cultura pode ser guiada em qualquer direção, por que observamos comportamento tão previsível entre os que podem pagar? Por que os ricos são tão fieis à biofilia?

Está claro que o contato com a Natureza nos traz prazer. Por que então tanta urbanização?

Embora Adam Smith tenha sido o primeiro grande teórico da economia moderna, ele parece não ter percebido duas coisas importantes. Uma delas foi o papel da propriedade da terra, abordado depois por David Ricardo, o segundo grande teórico da economia moderna. Outra foi a relação entre economia e ecologia – gêmeas siamesas, noção recuperada apenas recentemente, e incorporada em áreas “marginais” da economia moderna, como a Economia Ecológica e a Economia de Estado Estacionário.

Outro fator que parece ter afastado os economistas modernos de importantes noções ambientais foi o medo de outras revoluções socialistas/comunistas. A proposta de Marx para a revolução proletária fazia crer que apenas trabalhadores da indústria – trabalhadores urbanos – teriam condições educacionais para realizá-la. Esse foi o consenso internacional por décadas, até que Mao Zedong fizesse uma revolução na China com apoio da população rural, vitoriosa em 1949. A partir daí os capitalistas, temerosos de perder poder em outras regiões, aceleraram o processo de urbanização, principalmente no Brasil, a próxima potência rural, territorial e populacional do planeta.

Há quem pense que a urbanização é um processo natural. Que o campo, por ser coisa do passado, é necessariamente ruim, e que a tecnologia e os aglomerados urbanos onde reina o individualismo e o anonimato são o que a espécie humana “sempre desejou”. Há duas razões para esse pensamento. Uma é que, numa civilização dominada por dogmas religiosos opressores, o anonimato das grandes cidades é um alívio após milênios de opressão. Outra é a ausência de infraestrutura para o bem-estar no campo, peça chave da estratégia de expulsar o povo da terra, permitindo seu usufruto exclusivo pelos donos do capital.

Mas o que este modelo – êxodo rural, urbanização e latifúndio – tem causado?

Do lado do campo: sem pessoas para cultivar a terra, são necessárias grandes máquinas, que precisam de grandes espaços para dar retorno financeiro. O resultado é a destruição dos biomas nativos que, fossem preservados num mosaico entre os espaços produtivos, garantiriam o controle climático e de pragas, a preservação da biodiversidade e da fertilidade natural do solo, a manutenção das fontes de água e dos lençóis freáticos. Evitaríamos assim o uso excessivo de agrotóxicos, a redução da biodiversidade e agrobiodiversidade (variedades de sementes), a erosão e a desertificação – todos problemas gravíssimos que o modelo atual não consegue resolver.

Do lado da cidade: reduzindo o excesso populacional, reduziríamos as moradias insalubres nas favelas, a desigualdade social, e com ela a violência urbana, o trânsito caótico, estressante e poluidor (um dos maiores causadores do efeito estufa, ao lado do desmatamento e das indústrias indispensáveis ao modo de vida urbano), reduziríamos a incidência de vários tipos de doenças (relacionadas, por exemplo, ao estresse e à poluição do ar) e também a dependência da indústria farmacêutica (a Natureza oferece inúmeros medicamentos naturais), a obesidade e a má alimentação (alimentos industrializados cheios de conservantes, corantes e estabilizantes, além dos mal testados transgênicos e da poluição por agrotóxicos).

A vida no campo pode ser trabalhosa, mas não o é também a vida na cidade? Não gastamos dinheiro para recuperar a saúde em academias, quando poderíamos mantê-la com um trabalho não escravo no campo? (Assim como cachorros correm atrás dos carros para satisfazer seu instinto de perseguir a caça, também nós precisamos nos exercitar para satisfazer um instinto que está profundamente enraizado em nosso DNA.)

Se podemos ter, no campo, um ambiente limpo e agradável, rico em biodiversidade, em alimentos diversos e saudáveis, em fármacos naturais, fibras, óleos, resinas e perfumes, áreas de lazer e comunidades vigorosas, mais o acesso à informação e aos mercados, além da beleza estética oferecida pela Natureza, o que nos impede de alcançar essa sociedade ideal? Apenas os donos do dinheiro que mantêm hoje uma sociedade escravizada aos seus interesses?

Creio que já passou da hora de pensarmos profundamente sobre tudo isso e tomarmos uma atitude.

Transformando argumentos em fumaça

Antigamente, durante um debate, havia algo chamado argumento. Paulinho da Viola mesmo compôs um samba que começa assim: “Tá legal, eu aceito o argumento...” (1975)

E havia diferentes tipos de debatedores.

O primeiro tipo, o debatedor honesto, quando se via frente a um argumento convincente, era obrigado a admitir que podia estar errado, ou pelo menos dizia que ia pensar sobre o assunto – um sinal de respeito ao debate e ao outro debatedor. Dava-se o braço a torcer.

Outro tipo, o debatedor desonesto, frente a um argumento convincente, simplesmente o desprezava. Podia fingir que não tinha ouvido, ou que ouviu mas não entendeu. Ou, ouvindo e entendendo, fazia que não era com ele. Um coronel dos tempos (não idos) do coronelismo podia desprezar um argumento convincente, pois tinha outras formas de se impor: jagunços, armas e o apoio de policiais, juízes e políticos poderosos.

Tudo isso virou coisa do passado. Ou dos “tempos modernos”. Hoje, em tempos “posmodernos”, “cada um tem a sua verdade”. Para que servem argumentos, quando não faz mais sentido dizer “eu estou certo” ou “você está certo”. Ou “eu estou errado”, “você está errado”, ou ainda “estamos ambos errados”. Ninguém está errado mais. Pelo menos é o que o projeto posmoderno quer que acreditemos quando, em seus textos didáticos, chamam opinião de verdade.

As consequências são terríveis.

Nas votações da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) sobre a aprovação de organismos transgênicos, podemos ler os votos dos conselheiros. Lembro de ter lido a ata de uma reunião anos atrás. O único conselheiro contrário à proposta dava excelentes razões para a sua desaprovação. Ou seja, tinha excelentes argumentos. Os demais conselheiros, todos vendidos favoráveis à proposta, apenas diziam que “eram favoráveis” ou que “achavam que o dito organismo não devia causar mal”. Será que leram o argumento bem construído pelo único voto contrário? Ou, numa democracia posmoderna, apenas votaram (e “isso basta”)?

Durante a votação sobre o impeachment da ex-presidenta Dilma, a maioria dos parlamentares não se deram ao trabalho de justificar suas posições. As “pedaladas fiscais” incansavelmente usadas durante a campanha publicitária prévia – foram então esquecidas. Quando cada um tem a “sua verdade”, não é necessário se justificar perante “outras verdades”.

Os defensores desse caos calculado pensam (será?) que assim estão garantindo a pluralidade necessária à boa democracia. Estariam garantindo os direitos de mulheres, negros, indígenas, homossexuais, travestis, usuários de drogas ilícitas e outros grupos minoritários, excluídos ou privados de certos direitos. Mas se cada um tem “uma verdade”, e o diálogo, a argumentação e o convencimento são quase impossíveis, então os homens brancos cristãos heterossexuais bebedores de whisky não são obrigados a rever conceito algum. Podem permanecer com “suas verdades” machistas, racistas, dogmáticas, homofóbicas, elitistas... E uma vez que são os donos do capital, dos jornais, das emissoras de rádio e TV, das igrejas, gráficas e editoras, têm agora ainda mais sucesso na divulgação de seus ideais conservadores, pois não há resistência. A antiga resistência não pode mais se organizar. Está dividida, cada um com a “sua verdade”, cada qual no seu quadrado.

Essa é uma das formas como os poderosos usaram intelectuais bem pagos para divulgar uma doutrina que serve perfeitamente aos seus interesses. E a esquerda brasileira, quando vai acordar e perceber que caiu no conto do vigário?