quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O milagre econômico japonês e seu autor ignorado pelo Ocidente

Quem foi o Dr. Osamu Shimomura? Não, não é o Nobel de química que desvendou a bioluminescência, embora sejam homônimos.

A Economia Shimomurana é o avanço mais significativo já feito no entendimento econômico e o Ocidente ainda não percebeu
George Tait Edwards

Foi a explicação Shimomurana exposta em seu livro seminal "Seicho Seisaku No Kihon Mondai" (Problemas Básicos da Política de Crescimento Econômico, Março de 1961) que transformou o Japão, ao longo de poucas décadas, de uma economia empobrecida e danificada pela guerra em uma das maiores economias industriais do mundo. E a adoção da economia Shimomurana na China produziu o maior milagre econômico e potencialmente a principal superpotência do século XXI.

De acordo com o Banco de Desenvolvimento do Japão, o Dr. Osamu Shimomura (1910-89), "pai do milagre econômico japonês", também "cresceu para se tornar o economista mais influente do Japão pós-guerra, fundando uma escola de pensamento baseada na 'Teoria Shimomura', que atraiu numerosos seguidores" e "o Dr. Shimomura era bem conhecido pelo desenvolvimento de uma teoria do crescimento econômico baseada em uma visão dinâmica da economia Keynesiana."

https://medium.com/@georgetaitedwards/shimomuran-economics-is-the-most-significant-advance-ever-made-in-economic-understanding-and-the-e540e58bf270


Para a turma que quer distância de tudo ligado à esquerda (devidamente manipulados pela grande mídia), Keynes foi o economista contrário ao "Estado mínimo" que instruiu os Estados Unidos a realizarem investimentos estatais maciços, tirando o país da crise de 1929, que se estendeu por mais de uma década.

Embora o Dr. Shimomura seja considerado um dos maiores economistas do século XX, não encontra sequer uma entrada na Wikipedia. A "ignorância" (leia-se Manipulação) econômica ocidental é o que permite que crises se repitam em intervalos regulares, milhões de famílias vivam na mais absoluta miséria, enquanto banqueiros, rentistas e outros parasitas lucram cada vez mais.

E "a culpa é da esquerda"? Aham, senta lá Cláudia!




Jissen-ha Economics and Japanese Industrial Policy
Bai GAO
Duke University

Marx, Schumpeter e Keynes

“Os três paradigmas sucessivos na política industrial japonesa entre a década de 1930 e a de 1960 foram intelectualmente inspirados por três grandes pensadores da economia ocidental: Karl Marx, Joseph A. Schumpeter e John M. Keynes. O impacto de Marx, Schumpeter e Keynes na ideologia econômica japonesa se refletiu em uma série de entrevistas conduzidas pelo Toyo keizai shinposha em 1967* com oito proeminentes economistas japoneses sobre suas visões gerais da economia japonesa: Arisawa Hiromi, Nakayama Ichiro, Tobata Seiichi, Tsuru Shigeto, Shimomura Osamu, Ouchi Hyoe, Takahashi Kamekichi e Horie Shigeo. Depois dessas entrevistas, um dos entrevistadores, Koizumi Akira, tentou classificar suas posições em três categorias: a economia de mercado, representada por Friedrich A. Hayek; a economia mista, representada por John M. Keynes; e a economia planejada, representada por Karl Marx. Ele descobriu que as orientações teóricas desses oito economistas eram similares àquelas de Keynes ou Marx, e que nenhum deles preferia Hayek, embora ele tivesse se tornado popular entre a geração mais jovem da época**. No lugar do estático Hayek, essa geração de economistas japoneses preferiu o dinâmico Schumpeter. Outro entrevistador, Miyazaki Yoshikazu, apontou que as perspectivas desses economistas japoneses era ou Keynesianismo de curto-prazo mais Schumpeterianismo de longo-prazo, ou Keynesianismo de curto-prazo mais Marxismo de longo-prazo***.”

http://publications.nichibun.ac.jp/region/d/NSH/series/kosh/1996-03-25-3/s001/s031/pdf/article.pdf

* quando o PIB japonês já havia ultrapassado os da Inglaterra e França, e continuava em rápida ascenção.

** será que isso explica a ascenção da economia japonesa até 1995, e seu declínio posterior?

*** foi Keynes quem tirou os EUA da recessão de 1929, ao contrariar a ideia do “Estado mínimo” hoje defendida com tanto vigor pela direita. Já Marx dispensa apresentações.

Um povo que não lê, mas se sente bem informado assistindo TV, acreditará que é a direita quem promove o crescimento econômico, por mais que a realidade mostre justamente o contrário.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Kashmir - Led Zeppelin

Ah, deixa o Sol bater no meu rosto
e estrelas encherem meu sonho
Sou um viajante do tempo e do espaço
Para estar onde já estive
Sentar com anciões da raça gentil
que este mundo mal viu
Eles falam de dias que aguardam sentados
Tudo será revelado

***



Eu não tinha ainda prestado atenção nessa letra.

De fato, nossa civilização elétrica e hipocondríaca mal tem parado para cheirar as flores, já chamam a isso logo de "viadagem", num sinistro prenúncio do nem tão estúpido filme Idiocracy (2006).

Perder tempo "viajando o espaço e o tempo"? "Deixando o sol bater no rosto"? "Andando à toa"? "Tudo é trabalho", "devemos ser produtivos", "vagabundo bom é vagabundo morto", "O trabalho enobrece"*...

Esse mundo mal viu a raça gentil, não ouviu suas conversas sobre as melhores formas de se aproveitar a vida, ou qualquer outro assunto; mesmo tendo rádio, telefone e tv a cabo. Ou talvez justamente por isso.

Nada foi ainda revelado.

E se alguns deuses andam ainda em caminhos misteriosos
é também porque a Natureza é misteriosa.



* ARBEIT MACHT FREI ou "o trabalho liberta", frase inscrita nos campos de concentração nazistas, onde os presos trabalhavam até morrer.

sábado, 28 de julho de 2018

Vida de gado

O Ocidente perdeu seus valores há muito tempo porque se afastou da Natureza. Na Natureza tudo são múltiplos, nada é um. Então o monoteísmo já nasce antinatural. Precisa eliminar a concorrência, que no Oriente convive sem problemas. Eis a mãe da maioria das neuroses ocidentais, principalmente depois que o mesmo monoteísmo começou a demonizar o prazer sexual, e daí a condenar, perseguir e até proibir prazeres em geral, como o coito anal, a maioria (?) das drogas, ou mesmo o batom. Os hostilizados por essas atitudes não têm voz no púlpito que controla os jornais. Além disso, a religião molda a moral, que conduz a política. Não é questão de cada um agir bonitinho e pronto. Massa de manobra, rebanhos eleitorais, democracia desgovernada, esses são resultados do híbrido política X religião. Não é que aqui "pode tudo", mas "se perdermos a Terra, teremos outro lugar pra ir, então pra que se aborrecer? Papinho eco xiita" - essa é a "fé" monoteísta, que vem causando essa civilização apática. Por que monoteísta? Por que o resto, não-monoteísta, geralmente entende muito melhor a diferença entre mitologia e verdade. Por isso sabem debater, colocar os pontos-de-vista na mesa e procurar saber quantas patas tem o elefante. Coisa que monoteístas odeiam fazer. A ponto de, no Brasil, "não discutirmos três coisas: futebol, política e religião". E dá-lhe vida de gado!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Cristianismo e Islamismo = Monocultura


“As causas desse padrão ininterrupto de conflitos não estão em fenômenos transitórios como o fervor cristão do século XII ou o fundamentalismo muçulmano do século XX. Elas decorrem da natureza dessas duas religiões e das civilizações nelas baseadas. Os conflitos eram, por um lado, fruto das diferenças, especialmente da concepção muçulmana do Islamismo como um estilo de vida que transcendia e unia religião e política versus a concepção cristã ocidental da separação dos reinos de Deus e de César. Entretanto, os conflitos também se originavam de suas similitudes. Ambas são religiões monoteístas, que, ao contrário das politeístas, não podem assimilar com facilidade outras divindades e que veem o mundo em termos dualistas, de nós-e-eles. Ambas são universalistas, afirmando serem a única fé verdadeira à qual devem aderir todos os seres humanos. Ambas são religiões missionárias, acreditando que seus seguidores têm a obrigação de converter os não-crentes a essa única fé verdadeira. Desde suas origens, o Islamismo se expandiu pela conquista e, quando surgiram oportunidades, o mesmo se deu com o Cristianismo. As concepções paralelas de “jihad” e de “cruzada” não só se parecem como distinguem esses dois credos de outras grandes religiões do mundo. O Islamismo e o Cristianismo, junto com o Judaísmo, têm uma visão teleológica da História, em contraste com a visão cíclica ou estática que prevalece nas outras civilizações.”

Samuel P. Huntington, O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Ed. Objetiva, 1996. Pg. 264

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Daoísmo x Cristianismo


O taoísmo, agora chamado daoísmo, mostra como tantos de nossos valores, que acreditamos naturais, são na verdade antinaturais. O Dao De Jing (antes chamado Tao Te Ching ou Tao Te King) é repleto de exemplos.

Os cristãos dizem amar o seu deus (na verdade o deus judaico), mas estão apenas cumprindo ordens. O primeiro mandamento, antes mesmo do não matar e não roubar, é o que obriga o fiel a amar o seu deus sobre todas as coisas. A ameaça para os infratores é a punição no inferno. Um deus assim é mesmo amado? Ou é, antes de tudo, temido?

Os maiores mestres nem eram conhecidos
depois vêm os mestres queridos e louvados
depois os temidos, por fim os desprezados.
—Dao De Jing 17

Para os daoístas, Yao e Shun governavam o reino segundo o princípio da mínima ação (wu wei) — deixavam o povo cuidar de si mesmo, pois a Natureza é sábia e nos deu os instintos necessários para vivermos em harmonia (afinal, somos animais sociais). Claro que há brigas e mesmo assassinatos, mas o povo cuida melhor desses assuntos do que qualquer casta especializada (como o nosso caríssimo, ineficiente e corrupto judiciário).

Encha o mundo de tabus e a pobreza se espalhará
dê às pessoas bens e utilidades e a confusão se multiplicará
dê às pessoas técnicas engenhosas e coisas estranhas aparecerão
faça leis e decretos bem claros e surgirão muitos ladrões e criminosos.
Por isso governantes sensatos dizem:
eu não ajo e o povo por si só evolui
eu bem sereno e o povo por si só se retifica
eu não me preocupo e o povo sozinho enriquece
eu não desejo e o povo encontra sozinho a vida simples.
—Dao De Jing 57

Yao e Shun eram líderes exemplares, pois o povo nem precisava saber da sua existência. Já o deus judaico-cristão (o mesmo do islamismo), precisa ameaçar o povo com um castigo eterno, caso não seja “amado”. Está em terceiro (ou penúltimo) lugar na lista dos maiores mestres. É preciso mesmo um mandamento para respeitarmos o que é bom?

Todos os seres respeitamos a Natureza e valorizamos a Espontaneidade.
O respeito à Natureza e o valor à Espontaneidade
não vêm de um mandamento mas se expressam naturalmente.
—Dao De Jing 51

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tecnologia

Perguntei pra um amazônida uma vez qual a maior invenção da humanidade. Ele não pensou dois segundos: "a rede". Por quê? perguntei. "Porque onde você chegar com uma rede, está em casa." - ISSO é o melhor que a tecnologia alcança. Simples, eficiente, silenciosa.



"Grandes quantidades de energia degradam as relações sociais tão inevitavelmente quanto destroem o meio físico." -- Ivan Illich, Energia e Igualdade (inglês e espanhol).

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O mal fundamental do cristianismo, por um padre


É interessante quando vemos um padre denunciar o mal que o cristianismo causa, ainda que ele mesmo não perceba (talvez) o que está fazendo. Os trechos abaixo, da introdução da tradução de Zhuang Zi pelo padre Thomas Merton, mostram como um “bem” abstrato acaba conduzindo seus seguidores ao fanatismo, acreditando que seguem o bem quando na verdade praticam o mal.

Adaptação da tradução de
A Via de Chuang Tzu – Padre Thomas Merton
Ed. Vozes, Petrópolis, 1984. 4a Edição.

p. 43

Toda vez que uma visão limitada e condicionada do “bem” é erigida ao nível de um absoluto, imediatamente se torna um mal, porque exclui certos elementos complementares exigidos, caso se trate de um bem autêntico. Apegar-se a uma visão parcial, a uma opinião limitada e condicionada, e considerar isso como se fosse a resposta última a todas as perguntas formuladas, é simplesmente “obscurecer o Tao” e fazer com que o indivíduo permaneça irremovivelmente no erro.

pgs. 40-41

A teoria abstrata do “amor universal”, pregada por Mo Zi [e por Cristo], foi verificada com muita agudeza por Zhuang Zi como sendo falsa, por causa da inumanidade de suas consequências. Em tese, Mo Zi [como Cristo] afirmava que todos nós, homens, deveríamos ser amados com igual amor; que o indivíduo deveria encontrar seu maior bem ao amar o bem comum de todos [ou “amar o próximo como a si mesmo”], que o amor universal seria recompensado pela tranquilidade, paz, boa ordem de todos e felicidade individual. Mas esse “amor universal” será encontrado após uma série de pesquisas (como a maioria dos outros projetos utópicos), exigindo tanto da natureza humana que é impossível que ele se torne um fato concreto e, realmente, mesmo que se tornasse, ele aleijaria e deformaria o homem, causando-lhe a ruína e a da sociedade. Não que o amor não seja bom nem natural para o homem, mas porque um sistema erigido sobre um princípio teórico e abstrato do amor ignora certas realidades fundamentais e misteriosas das quais não podemos estar conscientes, e o preço que pagamos por essa nossa ignorância é sinal de que o nosso “amor” é, de fato, um ódio.

Daí se depreende que a sociedade do “amor universal”, planejada por Mo Zi [e por Cristo], era uma sociedade de quarta classe, triste e sombria, pois toda espontaneidade era olhada com suspeita. Os prazeres humanitários e organizados da vida amigável, ritualística, musical, etc., de Confúcio, eram todos banidos por Mo Zi [como o foram tantas vezes por igrejas cristãs, e continuam sendo].

pgs. 31-32

Quanto mais procurarmos o “bem” fora de nós mesmos, como algo a ser adquirido, tanto mais somos forçados à necessidade de discutir, de estudar, de entender, de analisar a natureza do bem. Tanto mais, também, passamos a ser envolvidos em abstrações e na confusão de opiniões divergentes. Quanto mais o “bem” for analisado objetivamente, quanto mais for ele tratado como algo a ser atingido por técnicas virtuosas especiais, tanto menos real se torna. À medida que vai se tornando menos real, regride mais e mais no caminho da abstração, do porvir, da inacessibilidade. Portanto, tanto mais nos concentramos no meio a ser empregado para alcançá-lo. E, à medida que o fim vai se tornando mais remoto e mais dificultoso, torna-se mais rebuscado e complexo, até que, finalmente, o simples estudo do meio se torna tão problemático que todos os esforços devem concentrar-se nesse meio e, então, nos esquecemos do fim. Daí, pois, a nobreza do erudito confuciano [ou cristão] torna-se, na realidade, uma devoção à inutilidade sistemática de praticar meios que não conduzem a nada. Isto nada mais é, de fato, do que o desespero organizado: “o bem” pregado e teorizado pelo moralista torna-se, assim, um mal, e isso levado a um extremo cada vez maior, porque a busca desenfreada do bem desvia-o do bem verdadeiro, que já possuímos dentro de nós mesmos, e que, agora, abandonamos ou ignoramos.