sábado, 3 de dezembro de 2022

De americanos e estadunidenses

Se tem algo que fere meus tímpanos é ouvir alguém dizer “americanos” ou, ainda pior, “norte-americanos” quando querem se referir a habitantes dos Estados Unidos da América. Quase sempre que comento isso, e proponho que se use em seu lugar o termo “estadunidenses”, aparece algum defensor do ego ferido alheio para me dizer que estadunidense “não existe” ou que “só existe no Brasil” e que “não é assim que eles se chamam” bla bla bla.

O “Diccionario de la Lengua Española”, da Real Academia Española, em sua 21ª edição (e também na 23ª, de 2014), contém os dois verbetes:

estadounidense. 1. adj. Natural de los Estados Unidos de América. U. t. c. s. 2. adj. Perteneciente o relativo a este país.
estadunidense. 1. adj. Hond. y Méx. estadounidense. Apl. a pers., u. t. c. s.

O “Diccionario Básico de La Lengua Española” (Editorial Planeta-De Agostini, Barcelona, 2001), também traz:

estadounidense adj. Natural de Estados Unidos de América. Ú.t.c.s. II Perteneciente o relativo a este país.

O “Diccionario de la Lengua Española”, da Editora Espasa (Barcelona, 2012), registra:

estadounidense adj. y com. De Estados Unidos o relativo a este país federal norteamericano.

Além desses, vários dicionários espanhóis online (como spanishdict.com, collinsdictionary.com, wordreference.com, rae.es, diccionarios.com, deepl.com, bing.com) trazem pelo menos a forma estadounidense, e às vezes também estadunidense (preferido em Honduras e México).

Na página da Wikipedia sobre os EUA (https://es.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos), o gentílico (gentilicio) estadounidense tem prioridade sobre norteamericano ou americano. Até sua moeda é chamada apenas de “dólar estadounidense”. Outras páginas repetem o uso do termo, como https://es.wikipedia.org/wiki/Nacionalidad_estadounidense.

Como podemos ver, nossos hermanos do continente americano há tempos compreendem que os habitantes dos Estados Unidos da América não têm o direito de arrogarem para si o gentílico de todo o continente. Apenas no Brasil permanece essa triste e colonizada teimosia de tratar os imperialistas do norte como se “nos representassem”, ou coisa parecida. Ora, os alemães chamam a si próprios de Deutschen, Deutsche ou Deutsch; por que então não os chamamos também de dótchi? Os chineses se referem a si como 中国人, ou zhōngguórén; por que não os chamamos de djonguorjen? Sequer sua capital, Beijing, escrevemos corretamente, teimando em usar o anglófono Peking, abandonado pelos chineses há mais de 60 anos!

Em suma, trata-se do mais abjeto e covarde viralatismo, que abana o rabo pros imperialistas ianques, enquanto trata os demais povos do planeta como os ianques esperam que os tratemos. Quando é que os brasileiros—incluindo muitos acadêmicos que se dizem progressistas—abandonarão este hábito e passarão a usar, sem medo, o inambíguo e já consagrado gentílico “estadunidense”?

domingo, 9 de outubro de 2022

Monoteísmo, o “paladar infantil” extendido

O monoteísmo é uma “síndrome do paladar infantil” ampliada.

Quando uma criança diz “eu sei o que é bom, sei do que gosto e do que não gosto, por isso não quero nem experimentar isto”, estamos diante dessa síndrome.

Quando uma criança a pratica, é triste. Quando um adulto a pratica, é doentio.

Quando um adulto a pratica em todos os níveis além do paladar, quando se acha sabedor de “tudo o que interessa” a ponto de desprezar ciências e filosofias, mitologias e outros pontos de vista, aí a inteligência que define a espécie humana morreu.

Via de regra, só monoteístas agem assim, e agem sempre assim. Por isso o monoteísmo é uma catástrofe civilizacional.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Monoteísmo é mitologia também

O monoteísmo finge ser a “única verdade do universo”, numa agressão à diversidade cultural e mitológica do planeta. São tão mitologia quanto as outras mitologias, e precisam entender isso. Não é o “ateísmo” que vai resolver, mas o entendimento do que é e como funciona uma mitologia. É sobre conhecer, não sobre acreditar. Fé cega é pleonasmo. Re-ligare (religião) é pra quem caiu no conto do vigário de que teríamos nos “desligado”. Não nos desligamos. O paraíso é aqui, e ninguém vai ganhar “outra Terra” por obedecer algum espertalhão.

domingo, 2 de outubro de 2022

De novo Adam Smith, esse “comunista” incorrigível…

“Na época específica em que se fizeram essas descobertas [Américas e caminho para as ‘Índias Orientais’ pelo cabo da Boa Esperança], a superioridade de força era tão grande, favorecendo os europeus, que lhes facultou praticar com impunidade toda sorte de injustiças nesses países remotos. Doravante, talvez os nativos desses países possam fortalecer-se, ou os da Europa se enfraquecer, e talvez os habitantes de todas as diferentes regiões do mundo possam chegar à igualdade de coragem e força que, por inspirar um temor mútuo, é a única coisa capaz de intimidar a injustiça dos países independentes, levando-os a ter um pouco de respeito pelos direitos uns dos outros.”

— Adam Smith (1961, v. II, p. 141) apud Giovanni Arrighi. 1994? O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Introdução.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A “mão invisível” de Adam Smith não era tão invisível assim

Se alguém na história das ciências econômicas defendeu o “Estado Mínimo”, pelo visto não foi Adam Smith:

“O interesse dos negociantes, em qualquer ramo específico de comércio ou de manufatura, sempre difere sob algum aspecto do interesse público, e até se lhe opõe. O interesse dos empresários é sempre ampliar o mercado e limitar a concorrência. Ampliar o mercado muitas vezes pode ser benéfico para o interesse público, mas limitar a concorrência sempre contraria necessariamente ao interesse público, e só pode servir para possibilitar aos negociantes, pelo aumento de seus lucros acima do que seria natural, cobrar, em seu próprio benefício, uma taxa absurda dos demais concidadãos. A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha de sua categoria sempre deve ser examinada com grande precaução e cautela, não devendo nunca ser adotada antes de ser longa e cuidadosamente estudada, não somente com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É proposta que advém de uma categoria de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais geralmente têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e que, conseqüentemente, têm em muitas oportunidades tanto iludido quanto oprimido esse povo.”

Adam Smith, A Riqueza das Nações
Vol. I, Livro Primeiro, Capítulo XI - A Renda da Terra
Final do capítulo (grifos meus)

sábado, 30 de outubro de 2021

A biologia, a Bíblia e a infantaria

Um dos problemas da religião é fazer multidões pensarem que a crise ambiental não é TÃO importante. Na pior das hipóteses, “Jesus voltará” e nos levará para uma “nova Terra”. Cuidar do planeta nunca foi PRIORIDADE pra essa gente.

Sabe o que é PRIORIDADE? É quando só temos este planeta, e nada mais, por isso o mais importante é cuidarmos bem dele. Mais importante do que se preocupar se o vizinho está dando o c*. Até melhor se estiver. Na biologia chamamos de “controle populacional dependente da densidade”.

O que a Bíblia ensina sobre “controle populacional dependente da densidade”? Obviamente, nada. O “Senhor dos Exércitos” controlava a densidade fazendo guerras, por isso apedrejavam gays. Precisavam do máximo de crianças novas pra incrementar a infantaria.

domingo, 18 de julho de 2021

De volta à Idade Média

Já há algumas décadas os tempos se parecem com a “Idade Média”. Falava-se então de mistérios impenetráveis: a Santíssima Trindade, a Transubstanciação de Cristo, o Pecado, a Salvação, a Vida Eterna… Não se podia negá-los, não se podia duvidar deles. A mera sugestão de dúvida, inquietação ou protesto tinha um resultado claro e infalível: a Santa Fogueira da Inquisição.

As pessoas comuns, que já não conseguiam acompanhar as missas em latim, ainda assim deviam ouvir alguns desses conceitos em algum lugar, na sua própria língua. E, não podendo nem assim compreendê-los, deviam fingir não apenas que os compreendiam, mas também que acreditavam neles do fundo da alma. No fundo da mente, porém, tinham todo o direito de duvidar, de rir e ridicularizar aquelas tolices. Poucos, porém, sustentariam essa rebeldia secreta, por medo de serem pegos falando no sono, ou rindo quando deveriam se mostrar sérios, etc. O auto-engano, devidamente treinado e domesticado, transformou-se a cada geração na “verdade revelada, auto-evidente e absoluta”, essa fonte de hipocrisia que nos vem assolando há milênios.

É bem verdade que a história nos trouxe depois Galileu, Kepler, Descartes, Newton e tantos outros, e esses tempos de sombrias imposturas ficou para trás. Ou melhor, parcialmente para trás, pois as imposturas, como as sombras, não desaparecem tão fácil: posto o Sol, nasce a Lua; oculta a Lua, cintilam estrelas; nublado o céu, voam pirilampos…

Mutatis mutandis, uma nova moda se impôs. Depois do Iluminismo, do Século das Luzes, da Idade da Razão, da Era das Revoluções, houve motivos para se declarar que tudo isso era já muito velho, e se buscavam coisas novas. Uma nova leva de “intelectuais” brilhou no horizonte, com novos métodos, novos estilos, “novas ideias” ou, ao menos, novas roupagens. Não apenas rejeitavam o velho, mas escreviam de tal forma, com ideias tão atraentes, que só podiam mesmo ser muito inteligentes. “Aí estão verdadeiros intelectuais”, apontava-se. Mas sua prosa, que por hora parecia clara e verdadeira, em outros momentos se mostrava imprecisa, vazia ou, quem sabe, profunda demais? Prolixa, com certeza. Inconclusiva, geralmente. Mas não parecia dizer aquilo que se queria ouvir? Em pouco tempo, já ocupavam os espaços de poder: editoras, revistas especializadas, livrarias, universidades…

Em pouco tempo, eram O assunto. E como a Roupa Nova do Rei, todos concordavam em repetir que era de fato muito bela, a mais esplendorosa trama, etc. E no fundo não entendiam o que estava sendo dito. Mas parecia inteligente, e quem negasse tamanha inteligência, quem ousasse admitir que não havia entendido, que não via sentido, que chegava mesmo a achar aquilo ridículo, pomposo, fútil… seria relegado clara e infalivelmente à fogueira dos novos tempos: o ostracismo acadêmico, a perda do Currículo, os trabalhos forçados manuais (essa forma degradante de existência, no imaginário dos proletários do saber).

E assim, entre frases nebulosas e ataques explícitos à racionalidade—interrompida volta e meia por essas eras de incertezas e sombras—chegamos no mundo de hoje, onde a Terra Plana deixou de ser uma piada inofensiva, onde o orçamento do Ministério da Ciência é reduzido a cada ano, onde a recusa em vacinar-se virou artigo de honra e cadafalso para o auto-genocídio de um povo. Tudo porque aos especialistas falta a coragem de dizer, em alto e bom som, que o Rei está nu.