domingo, 2 de outubro de 2022

De novo Adam Smith, esse “comunista” incorrigível…

“Na época específica em que se fizeram essas descobertas [Américas e caminho para as ‘Índias Orientais’ pelo cabo da Boa Esperança], a superioridade de força era tão grande, favorecendo os europeus, que lhes facultou praticar com impunidade toda sorte de injustiças nesses países remotos. Doravante, talvez os nativos desses países possam fortalecer-se, ou os da Europa se enfraquecer, e talvez os habitantes de todas as diferentes regiões do mundo possam chegar à igualdade de coragem e força que, por inspirar um temor mútuo, é a única coisa capaz de intimidar a injustiça dos países independentes, levando-os a ter um pouco de respeito pelos direitos uns dos outros.”

— Adam Smith (1961, v. II, p. 141) apud Giovanni Arrighi. 1994? O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Introdução.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A “mão invisível” de Adam Smith não era tão invisível assim

Se alguém na história das ciências econômicas defendeu o “Estado Mínimo”, pelo visto não foi Adam Smith:

“O interesse dos negociantes, em qualquer ramo específico de comércio ou de manufatura, sempre difere sob algum aspecto do interesse público, e até se lhe opõe. O interesse dos empresários é sempre ampliar o mercado e limitar a concorrência. Ampliar o mercado muitas vezes pode ser benéfico para o interesse público, mas limitar a concorrência sempre contraria necessariamente ao interesse público, e só pode servir para possibilitar aos negociantes, pelo aumento de seus lucros acima do que seria natural, cobrar, em seu próprio benefício, uma taxa absurda dos demais concidadãos. A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha de sua categoria sempre deve ser examinada com grande precaução e cautela, não devendo nunca ser adotada antes de ser longa e cuidadosamente estudada, não somente com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É proposta que advém de uma categoria de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais geralmente têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e que, conseqüentemente, têm em muitas oportunidades tanto iludido quanto oprimido esse povo.”

Adam Smith, A Riqueza das Nações
Vol. I, Livro Primeiro, Capítulo XI - A Renda da Terra
Final do capítulo (grifos meus)

sábado, 30 de outubro de 2021

A biologia, a Bíblia e a infantaria

Um dos problemas da religião é fazer multidões pensarem que a crise ambiental não é TÃO importante. Na pior das hipóteses, “Jesus voltará” e nos levará para uma “nova Terra”. Cuidar do planeta nunca foi PRIORIDADE pra essa gente.

Sabe o que é PRIORIDADE? É quando só temos este planeta, e nada mais, por isso o mais importante é cuidarmos bem dele. Mais importante do que se preocupar se o vizinho está dando o c*. Até melhor se estiver. Na biologia chamamos de “controle populacional dependente da densidade”.

O que a Bíblia ensina sobre “controle populacional dependente da densidade”? Obviamente, nada. O “Senhor dos Exércitos” controlava a densidade fazendo guerras, por isso apedrejavam gays. Precisavam do máximo de crianças novas pra incrementar a infantaria.

domingo, 18 de julho de 2021

De volta à Idade Média

Já há algumas décadas os tempos se parecem com a “Idade Média”. Falava-se então de mistérios impenetráveis: a Santíssima Trindade, a Transubstanciação de Cristo, o Pecado, a Salvação, a Vida Eterna… Não se podia negá-los, não se podia duvidar deles. A mera sugestão de dúvida, inquietação ou protesto tinha um resultado claro e infalível: a Santa Fogueira da Inquisição.

As pessoas comuns, que já não conseguiam acompanhar as missas em latim, ainda assim deviam ouvir alguns desses conceitos em algum lugar, na sua própria língua. E, não podendo nem assim compreendê-los, deviam fingir não apenas que os compreendiam, mas também que acreditavam neles do fundo da alma. No fundo da mente, porém, tinham todo o direito de duvidar, de rir e ridicularizar aquelas tolices. Poucos, porém, sustentariam essa rebeldia secreta, por medo de serem pegos falando no sono, ou rindo quando deveriam se mostrar sérios, etc. O auto-engano, devidamente treinado e domesticado, transformou-se a cada geração na “verdade revelada, auto-evidente e absoluta”, essa fonte de hipocrisia que nos vem assolando há milênios.

É bem verdade que a história nos trouxe depois Galileu, Kepler, Descartes, Newton e tantos outros, e esses tempos de sombrias imposturas ficou para trás. Ou melhor, parcialmente para trás, pois as imposturas, como as sombras, não desaparecem tão fácil: posto o Sol, nasce a Lua; oculta a Lua, cintilam estrelas; nublado o céu, voam pirilampos…

Mutatis mutandis, uma nova moda se impôs. Depois do Iluminismo, do Século das Luzes, da Idade da Razão, da Era das Revoluções, houve motivos para se declarar que tudo isso era já muito velho, e se buscavam coisas novas. Uma nova leva de “intelectuais” brilhou no horizonte, com novos métodos, novos estilos, “novas ideias” ou, ao menos, novas roupagens. Não apenas rejeitavam o velho, mas escreviam de tal forma, com ideias tão atraentes, que só podiam mesmo ser muito inteligentes. “Aí estão verdadeiros intelectuais”, apontava-se. Mas sua prosa, que por hora parecia clara e verdadeira, em outros momentos se mostrava imprecisa, vazia ou, quem sabe, profunda demais? Prolixa, com certeza. Inconclusiva, geralmente. Mas não parecia dizer aquilo que se queria ouvir? Em pouco tempo, já ocupavam os espaços de poder: editoras, revistas especializadas, livrarias, universidades…

Em pouco tempo, eram O assunto. E como a Roupa Nova do Rei, todos concordavam em repetir que era de fato muito bela, a mais esplendorosa trama, etc. E no fundo não entendiam o que estava sendo dito. Mas parecia inteligente, e quem negasse tamanha inteligência, quem ousasse admitir que não havia entendido, que não via sentido, que chegava mesmo a achar aquilo ridículo, pomposo, fútil… seria relegado clara e infalivelmente à fogueira dos novos tempos: o ostracismo acadêmico, a perda do Currículo, os trabalhos forçados manuais (essa forma degradante de existência, no imaginário dos proletários do saber).

E assim, entre frases nebulosas e ataques explícitos à racionalidade—interrompida volta e meia por essas eras de incertezas e sombras—chegamos no mundo de hoje, onde a Terra Plana deixou de ser uma piada inofensiva, onde o orçamento do Ministério da Ciência é reduzido a cada ano, onde a recusa em vacinar-se virou artigo de honra e cadafalso para o auto-genocídio de um povo. Tudo porque aos especialistas falta a coragem de dizer, em alto e bom som, que o Rei está nu.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Fio contra a memória curta

A “grande” mídia brasileira fez o possível para derrubar o PT, mesmo recebendo bastante dinheiro de publicidade do governo. Afinal, sua suposta idoneidade esconde (mal e porcamente) o fato de serem capachos do capital e do imperialismo.

Aqui tem o fio de um historiador que nos ajuda a lembrar algumas “pérolas” das últimas décadas: https://twitter.com/louverture1984/status/1342823591952474114.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Na carrocracia, quanto vale a vida de um passageiro de ônibus?

Eu ia de ônibus pra manifestação contra o desgoverno no último sábado, 19 de junho de 2021. Na parada, todos os veículos que passavam tinham as janelas vedadas: ar-condicionado. Lá dentro, rostos tristes, de máscara, ocupavam os assentos ou iam em pé.

Os ônibus não estão tão cheios, pensei, afinal é sábado. Mas nos dias de semana, os ônibus continuam tão lotados quanto antes da pandemia, e ainda assim seus passageiros são obrigados a respirar o mesmo ar viciado, substituído (?) apenas por um parco sistema de refrigeração – cujo nome já diz: serve para resfriar, muito mais que para ventilar.

Existe algum estudo que mostre a eficácia do ar-condicionado dos ônibus em fazer circular o ar, prevenindo o contágio de uma doença com alta letalidade como a Covid? Ou estamos apenas “tendo fé” na salvação por “graça divina”, como prefere a maioria dos eleitores do energúmeno que ocupa a presidência?

Quanto custaria às empresas, donas das frotas de ônibus, substituir os vidros vedados por vidros que se abrem, caso isso seja necessário para circular o ar o suficiente para reduzir o número de mortes? E qual a porcentagem desse custo em relação ao seu lucro?

Quanto vale, afinal, a vida dos passageiros de ônibus, dentro de um sistema que podemos muito bem chamar de carrocracia?

Depois de um ano e três meses de pandemia, depois de meio milhão de mortos em todo o país, ainda não vi ninguém fazer essas perguntas.

PS: acabei indo de Uber.

segunda-feira, 29 de março de 2021

O jardim improvável

Eu gosto de plantas, mas não sou um bom jardineiro. Se fosse, encheria minha casa de plantas: pelo chão, pelas paredes, penduradas no teto… Mas cada planta tem suas exigências. Umas pedem muita água, outras se afogariam com metade. Umas gostam de muita luz, outras preferem sombra. Acertar todas essas preferências para várias espécies não é nada fácil. Por isso me espantei ao entrar num casarão abandonado há décadas. Havia plantas vigorosas crescendo em cada muro, em cada parede, em casa fresta, por todo o chão, sobre (e sob) o que restou do telhado… É óbvio, portanto, que ali deve morar um grande jardineiro.

Igualmente, a beleza do mundo natural implica a existência de deuses criadores…