quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tentando entender o que acontece na economia brasileira - Parte 2

Continuando as análises anteriores, temos ainda alguns gráficos a analisar. Mas primeiro, vejamos o que dizem alguns economistas sobre a crise.

Heather Stewart, do jornal britânico Guardian, escreveu em setembro de 2015:

Haldane [Andy Haldane, formulador de políticas bancárias do Banco da Inglaterra] afirma que cerca de 600 bilhões de dólares de capital "saíram de economias afetadas pela crise em direção aos mercados emergentes" logo após a Grande Recessão que afetou os países desenvolvidos devido à crise dos subprime em 2008-09.

Durante os últimos 18 meses, à medida que o Banco Central dos EUA estabeleceu as bases para elevar as taxas de juros, "este ciclo obviamente se inverteu" e cerca de 300 bilhões de dólares de capital fluiu de volta para fora dos mercados emergentes.

"Como antes, onde o dinheiro foi houve crescimento," ele diz. Em vários países, da Turquia ao Brasil, Russia à Malásia, o rendimento dos títulos públicos, que determina a taxa de juros que os governos devem pagar sobre seus débitos, está subindo; o preço das commodities está caindo; a instabilidade política se alastra.

Se o capital saiu das economias emergentes buscando lucros mais altos nos EUA, isso pode explicar boa parte da crise observada no Brasil e em outros países. O difícil é medir essa movimentação do capital.

Pelos índices das bolsas de valores, vemos que, enquanto a Bovespa vinha caindo lentamente desde 2010, os índices Dow Jones e Nasdaq não param de subir, chegando mesmo a ultrapassar os valores atingidos antes das bolhas de 2000 (bolha da Internet) e 2008 (bolha imobiliária). Isso nos leva à pergunta: quanto desse novo aumento é, novamente, mera especulação?

Fonte: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries (Mercados financeiros e de capitais/Indicadores do mercado de capitais)

Quanto às empresas negociadas na bolsa, vemos uma quase estagnação do valor total desde 2007 (o que significa uma queda, considerada a inflação), bem como uma queda no número de empresas no mesmo período. Além disso, vemos dois "picos invertidos": o primeiro atingindo o ápice na passagem de 2008 para 2009, e o segundo na passagem de 2015 para 2016. A razão do primeiro parece obviamente a crise global, enquanto o segundo talvez seja explicado pela crise política em torno do impeachment da presidente Dilma.


Fonte: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries (Mercados financeiros e de capitais/Indicadores do mercado de capitais)

Quanto ao aumento dos juros pelo Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), os gráficos disponíveis mostram um leve aumento dos chamados Bank Discount e Coupon Equivalent, para um e seis meses.

Fonte: https://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/interest-rates/Pages/default.aspx


Infelizmente explicar o que significam esses jargões (Bank Discount e Coupon Equivalent) está além do meu conhecimento de economia. Vemos apenas que suas curvas são idênticas às curvas de 1 mês e 1 ano dos gráficos abaixo.


Fonte: https://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/interest-rates/Pages/default.aspx


Aparentemente, os juros para investimentos de curto prazo subiram de forma mais consistente que os de longo prazo. Numa economia globalizada e instável, talvez este seja o tipo de investimento mais atraente para investidores internacionais? Infelizmente a fonte não mostra os valores reais (descontada a inflação) para os investimentos de curto prazo.

O quarto gráfico dos juros nos EUA mostra os valores nominal e real (descontada a inflação) para os investimentos de longo prazo (a partir de dez anos). O prometido aumento citado por Stewart e Haldane é cada vez menos visível.

Fonte: https://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/interest-rates/Pages/default.aspx

Outro fator que influencia a movimentação do capital para dentro e fora dos países é o chamado risco-país, no nosso caso o risco Brasil. Sobre isso vamos fazer um parêntesis.

(Uma das instituições que avaliam o risco-país esteve envolvida no escândalo da crise dos subprimes nos EUA em 2008: a J.P. Morgan. Apesar das comprovações de fraude e irresponsabilidade que arruinaram milhões de famílias em diversos países, nenhuma dessas instituições foi punida. Pelo contrário, receberam dinheiro dos contribuintes para quitar suas dívidas. No chamado escândalo de poupança e empréstimo dos anos 1980 -- savings and loan crisis -- 839 pessoas foram condenadas por "crimes do colarinho branco". Nesta crise que começou em 2008 e não tem data para terminar, embora o rombo seja 70 vezes maior,  até onde sei apenas um executivo foi preso. Há alguns filmes contando essa história: Capitalism: A Love Story, de 2009; Inside Job, de 2010; Too Big To Fail, de 2011; The Big Short, de 2015.)

O gráfico abaixo mostra a evolução do risco Brasil desde 1994. Embora a fonte citada seja o IPEA, o mesmo cita ninguém mais, ninguém menos que JP Morgan como sua fonte. Como uma instituição dessas ainda tem credibilidade depois do escândalo de 2008, é algo que escapa ao meu entendimento. Comentário do IPEA: O EMBI+ é um índice baseado nos bônus (títulos de dívida) emitidos pelos países emergentes. Mostra os retornos financeiros obtidos a cada dia por uma carteira selecionada de títulos desses países. A unidade de medida é o ponto-base. Dez pontos-base equivalem a um décimo de 1%.Os pontos mostram a diferença entre a taxa de retorno dos títulos de países emergentes e a oferecida por títulos emitidos pelo Tesouro americano. Essa diferença é o spread, ou o spread soberano. O EMBI+ foi criado para classificar somente países que apresentassem alto nível de risco segundo as agências de rating e que tivessem emitido títulos de valor mínimo de US$ 500 milhões, com prazo de ao menos 2,5 anos.

Fonte: http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=40940&module=M

O comentário do IPEA explica que o risco Brasil (EMBI+) mostra a diferença entre os juros oferecidos pelos títulos públicos brasileiros e dos EUA. Analisando os gráficos anteriores (taxa SELIC, no post anterior, e juros dos EUA, neste post) vemos que o risco Brasil de 1996 a 2001 é praticamente um reflexo da taxa SELIC (infelizmente não temos dados sobre os juros nos EUA para este período). De 2004 a 2007, com a alta dos juros nos EUA, o risco Brasil cai (pouco risco, mas também pouca atratividade: por que especular no Brasil, se a especulação nos EUA rende muito mais?). Então em 2008 os juros nos EUA despencam, e vemos uma leve alta da SELIC, causando um pico pronunciado no risco Brasil. Um leve aumento da SELIC em 2011 causou um incremento mínimo no EMBI+. O aumento da SELIC em 2015 faz subir novamente o risco Brasil, que diminui em seguida (2016) com o aumento dos juros nos EUA. 2002 parece um caso mais complexo: houve uma queda de juros desde o início do ano (veja Bank Discount/Coupon Equivalent 6 meses), que se pronunciou ainda mais no fim do ano. A SELIC teve um grande aumento também no fim do ano. Mas o risco Brasil explodiu (ultrapassando dois mil pontos) ainda no meio do ano. É evidente que outros fatores estão em jogo. Provavelmente, trata-se do medo do "mercado" sobre a possível eleição do então candidato Lula.

Para tentar entender a queda recente no PIB, vejamos os componentes da demanda, ou seja, os fatores que contribuem para o aumento ou retração do PIB. O gráfico abaixo foi copiado do artigo de Bruno Paim, Perfil da dívida das famílias e o Sistema Financeiro Nacional.

Fonte: http://revistas.fee.tche.br/index.php/indicadores/article/download/3499/3535

Vemos que o consumo das famílias foi um fator importante no crescimento do PIB entre 2004 e 2014 (algo que deve ser lembrado a quem diz que Lula "apenas se aproveitou dos acertos do seu antecessor, e ainda surfou no boom das commodities"). Depois de 2010 vemos já um desaquecimento da economia, com oscilações na formação bruta de capital fixo ou FBCF -- o capital, em boa parte internacional, que vai até os países mais lucrativos, ou seja, com maiores taxas de juros (os anos de 2003, 2009 e 2012, onde o gráfico de Paim mostra um decréscimo na FBCF, são justamente anos onde observamos uma queda acentuada da taxa SELIC. Esta taxa também caiu entre 2005 e 2007, mas este período representa o início do aumento do preço das commodities, principalmente petróleo, minério de ferro e soja). A queda na FBCF observada em 2014 talvez seja parte do "ciclo invertido" relatado por Andy Haldane no artigo do Guardian citado no início deste texto. Ainda não entendi como as exportações líquidas podem apresentar valores negativos entre 2006 e 2008, quando os dados da nossa balança comercial (segundo o IBGE) mostram mais exportações que importações, pelo menos para 2006 e 2007.

Finalmente, vamos comparar o crescimento do PIB per capita brasileiro com outros grupos de países.

Brasil (em verde) e outros países do Mercosul (Argentina, Venezuela, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador e Peru).

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

Brasil (em verde) e outros países emergentes, na definição do FMI (Argentina, Bulgária, Chile, China, Colômbia, Estônia, Hungria, Índia, Indonésia, Letônia, Lituânia, Malásia, México, Paquistão, Peru, Filipinas, Polônia, Romênia, Rússia, África do Sul, Tailândia, Turquia, Ucrânia e Venezuela).

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

Os países que menos cresceram em 2015 (na verdade tiveram uma retração do PIB) foram Ucrânia (-9,5%), Brasil (-4,6%) e Rússia (-3,0%). Interessante notar que a Rússia também foi citada por Haldane em relação à elevação das taxas de juros e instabilidade política.

Brasil (em verde) e União Europeia (Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Portugal, Reino Unido, Suécia, Polônia, República Checa, Hungria, Croácia, Romênia, Bulgária, Dinamarca, Andorra, Mônaco, San Marino, Montenegro e Kosovo)

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

O país que apresenta um crescimento espetacular em 2014 e 2015 é a Irlanda (não sabemos se é um crescimento real ou um artefato estatístico). O país com um crescimento maior que 20% em 2001 é Kosovo, sendo o primeiro ano da série para este país. Curiosamente, sua declaração de independência (da Sérvia) data de 2008, o que nos faz questionar a credibilidade dessa fonte.

Brasil (em verde) e Zona do Euro (Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda e Portugal).

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

Brasil (em verde) e ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático: Tailândia, Filipinas, Malásia, Cingapura, Indonésia, Brunei, Vietnã, Mianmar, Laos e Camboja).

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG


Brasil (em verde) e países que têm moeda chamada Dólar (Antigua e Barbuda, Austrália, Bahamas, Barbados, Belize, Bermuda, Brunei, Canadá, Ilhas Cayman, Dominica, Timor Leste, Equador, El Salvador, Fiji, Granada, Guiana, Hong Kong, Jamaica, Kiribati, Libéria, Ilhas Marshall, Estados Federados da Micronésia, Namíbia, Nauru, Nova Zelândia, Palau, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Singapura, Ilhas Salomão, Suriname, Taiwan, Trindade e Tobago, Tuvalu, Estados Unidos e Zimbabwe).

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

Vemos que, a partir de 2011, a maioria dos países emergentes e do Mercosul cresceram mais rápido que o Brasil. Já na União Europeia, bem como na Zona do Euro, a maior parte dos países cresceram menos que o Brasil até 2013. Os países da ASEAN foram menos atingidos que os demais pela crise de 2008-09, e a maioria cresceu mais que o Brasil a partir de 2011. De 2008 a 2012, o Brasil cresceu mais que os países que usam algum tipo de Dólar, e mostrou um crescimento bem inferior a partir de 2014.

É fácil encontrar longos textos na Internet explicando as razões da crise brasileira que estourou em 2015. A maioria deles, de viés ortodoxo, acusa a política econômica adotada pelo PT (a chamada Nova Matriz Econômica). Talvez estejam certos. Mas perdem alguma credibilidade pelo fato de não considerarem outros fatores internos (como a campanha midiática em favor da instabilidade que levaria ao impeachment e a interrupção quase total das atividades de grandes empresas envolvidas em esquemas de corrupção) e externos (como a queda no preço das commodities, os desdobramentos mundiais da crise de 2008-09 e a fuga de capitais após a propaganda de elevação dos juros nos EUA).

O texto mais detalhado que encontrei, do doutor em economia Marcos Mendes, apresenta um rigor técnico aparentemente impecável. Mas é muito fácil ser convencido por uma argumentação quando não ouvimos os argumentos do outro lado (ainda mais quando somos leigos no assunto). E ainda não encontrei uma explicação didática por parte de algum economista de esquerda e/ou dos proponentes da Nova Matriz Econômica. Talvez eu precise procurar mais, ou talvez seja consequência de um fenômeno apontado por Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI (grifo meu):

As tabelas de distribuição oferecem um ponto de vista mais concreto e palpável sobre a desigualdade social, além de nos conscientizarem sobre a realidade e os limites dos dados de que dispomos para estudar essas questões. Indicadores estatísticos sintéticos como o coeficiente de Gini fornecem, ao contrário, uma visão abstrata e complicada da desigualdade, que impede que nos situemos na hierarquia de noso tempo (exercício sempre útil, sobretudo quando se pertence aos centésimos superiores da distribuição e quando se tem a tendência a se esquecer disso, o que é muito frequente no caso dos economistas).

Se o que estamos assistindo agora for parte de um plano maior para afastar governos de esquerda no Brasil, na América Latina e além, talvez venhamos a descobrir um dia. Mas, como no caso do roubo e destruição da Panair, talvez "um dia" seja tarde demais.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Tentando entender o que acontece na economia brasileira


A crise que estourou em 2015 no Brasil causou, no ano seguinte, o afastamento da presidenta Dilma. A grande mídia, de forma simplista (para não dizer golpista) colocou toda a culpa sobre sua suposta má administração. Mas o que aconteceu, exatamente? Sabemos que o desemprego aumentou e que o dólar subiu. Mas o dólar também havia subido em 2002, quando Lula pela primeira vez apareceu nas pesquisas com grandes chances de ser eleito presidente, e a grande mídia fazia o terrorismo psicológico de que, se ele fosse eleito, “o país iria quebrar”. O dólar então chegou muito perto dos quatro reais (preço de compra R$3,9544 em 22/out/2002, “coincidentemente” cinco dias antes do segundo turno das eleições), e não podemos colocar a culpa “na corrupção do PT”. Em 2015 o dólar voltou à casa dos quatro reais, e nós, que sabemos o tamanho do viés da grande mídia nesse tipo de assunto, precisamos então fazer uma investigação independente, se queremos entender o que aconteceu.

Fonte: http://www4.bcb.gov.br/pec/taxas/port/ptaxnpesq.asp?id=txcotacao

Vemos que, após o Plano Real (meados de 1994), o valor do dólar foi fixado pelo Banco Central até o final de 1998, passando no início de 1999 a ser regulado pelo mercado (o chamado câmbio flutuante). Além dos picos que já citamos (2002 e 2015), houve uma leve alta durante a crise financeira de 2008 e 2009. Mas qual foi a causa da última alta, que começa a se esboçar já no final de 2014?

Lembro que, enquanto todos falavam da grande crise financeira internacional em 2008 e 2009, o então presidente Lula disse que o que chegava aqui era apenas uma “marolinha”. De fato, com incentivos fiscais para a venda de eletrodomésticos, e principalmente automóveis, nós fugimos da crise por um tempo (ao custo de abarrotar nossas ruas de carros, mas isso é outra história). Finalmente, a partir do final de 2011, o dólar não parou mais de subir. Partindo de cerca de R$1,55 (o mesmo valor antes da crise de 2008), passou a marca dos dois reais em 18/mai/2012, passou os R$2,50 (para venda) em 23/out/2014 (três dias antes do segundo turno das eleições para presidente), e a partir de então teve uma subida vertiginosa, passando de três reais em 6/mar/2015, passando de R$3,50 em 6/ago/2015, e finalmente ultrapassando os quatro reais em 22/set/2015. Na época o processo de impeachment já estava em andamento, e é preciso perguntar: o dólar subiu como resultado de más políticas por parte do governo federal, ou subiu como resultado do (ou mesmo ajuda ao) caos político instaurado então? Ou, se um pouco de cada, quanto de cada?

Um dos fatores que contribui com a variação do dólar é o comércio exterior. Nossas importações renderam menos que o valor gasto com as exportações a partir de 2008/2009 (o chamado déficit comercial), e a diferença se ampliou a partir de 2013.



Fonte: seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=12&op=0&vcodigo=ST59&t=exportacao-bens-servicos-brvalores-correntes

Mas, quando olhamos o volume das principais exportações (soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina), vemos que não houve alteração, embora tenha havido uma queda substancial no seu valor (principalmente de petróleo e minério de ferro).


Fonte: http://www.mdic.gov.br/index.php/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/base-de-dados-do-comercio-exterior-brasileiro-arquivos-para-download

Isso parece ser explicado pela queda repentina e simultânea no preço dessas commodities, como pode ser visto abaixo.

Fonte: http://databank.worldbank.org/data/reports.aspx?source=global-economic-monitor-(gem)-commodities#

A variação no preço do petróleo merece uma reflexão à parte, mas as demais também pedem uma explicação. Terão sido causadas pelo esfriamento da economia global? Principalmente da economia chinesa? Ainda não sabemos. Mas podemos olhar o quadro mais de longe.

Fontes:
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=iron-ore&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=soybeans&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=crude-oil-brent&months=360


E o mesmo gráfico, corrigindo o valor do dólar pela inflação.

Fontes:
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=iron-ore&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=soybeans&months=360
http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=crude-oil-brent&months=360

http://www.usinflationcalculator.com/inflation/consumer-price-index-and-annual-percent-changes-from-1913-to-2008/

Vemos uma alta no preço da soja e do minério de ferro de 2008 a 2014, que podem estar relacionados ao aumento da demanda (chinesa, principalmente?) ou à alta (artificial?) do dólar. A queda observada parece ter sido, portanto, um retorno à normalidade.

Se as importações se tornaram mais caras que as exportações, como evitar a alta do dólar, que passou a sair muito mais do que entrar no país? Um caminho seria usar as reservas cambiais para abastecer o mercado, outro é pedir empréstimos, aumentando a dívida pública. Pelos dados abaixo, parece evidente que o caminho tomado foi o segundo. A dívida começou a subir num ritmo acelerado no final de 2015, o que coincide com uma baixa, ainda que relativa, no valor do dólar. Contudo, a mesma estratégia não parece ter sido necessária em 2002, o que nos leva a perguntar sobre as diferenças entre as duas ocasiões.


Fonte: https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/DemonstrReservas_M.zip
Fonte: https://www.bcb.gov.br/htms/infecon/seriehistDLSPBruta2007.asp - https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/Divggp.zip


Aqui vemos uma relação inversa entre a dívida pública e o PIB: enquanto a primeira aumentou, o ritmo de crescimento do segundo caiu. Expressando a dívida como uma fração do PIB, temos o próximo gráfico.

Fonte: https://www.bcb.gov.br/htms/infecon/seriehistDLSPBruta2007.asp - https://www.bcb.gov.br/ftp/notaecon/Divggp.zip


Embora a dívida pública tenha aumentado, como proporção do PIB, ainda podemos dizer que está em um patamar perfeitamente manejável, se a compararmos com as dívidas de outros países (exs) ou mesmo do Brasil antes e nos primeiros anos do governo Lula. Outra questão que se apresenta é: qual a mudança do PIB no período estudado?

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.CD

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.CD


Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.KD.ZG

O PIB diminuiu 3,8% de 2014 para 2015, e outros 3,6% de 2015 para 2016. Essa sequência de duas baixas consecutivas só foi verificada no Brasil nos anos de 1930 e 1931 (logo após a crise de 1929), quando os recuos foram de 2,1% e 3,3%, respectivamente. Interessante notar que a crise de 2008 e 2009, que afeta muitos países ainda em 2017, já foi comparada à crise de 1929, sendo considerada pior em certos aspectos. Conseguimos hoje adiar seus efeitos por mais tempo que no início do século XX?

Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD


Vemos aqui o PIB de diferentes países como parte do PIB mundial. Os países são BRA Brasil, CHN China, DEU Alemanha, FRA França, GBR Grã-Bretanha, JPN Japão e USA Estados Unidos.


Fonte: http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD

Aqui o mesmo gráfico anterior, mas com o PIB per capita em relação ao PIB per capita mundial.

Vejamos outros indicadores.

Fontes:
IBGE, Pesquisa Mensal de Emprego dez/1991 a dez/2002 - http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=7&op=0&vcodigo=FDT10&t=taxa-desemprego-aberto-pessoas-15-anos
IBGE, Pesquisa Mensal de Emprego, 2002/mar a 2016/jan - http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?no=7&op=0&vcodigo=PE63&t=taxa-ocupacao


O desemprego, que havia aumentado de 5-6% para 7-8% (na antiga métrica) em 1998, vinha caindo desde 2004 até 2014 (as cores ilustram diferentes metodologias). Em 2015 deu um salto impressionante (de 4,5% para 8%), e sabemos que em 2016 aumentou ainda mais. Isso está diretamente relacionado com a queda do PIB, principalmente nos setores industrial e de serviços.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Os dados oficiais oferecem uma decomposição do setor industrial. O valor do PIB foi dividido pelo custo da Cesta Básica, como forma de remover o efeito da inflação.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Vemos que a indústria de transformação e extração mineral foram as mais afetadas, seguidas pela construção civil. A tragédia do rompimento da barragem de Bento Gonçalves, perto da cidade de Mariana em Minas Gerais, ocorrida no dia 5/nov/2015, parece explicar apenas uma pequena parte do problema.

Fontes:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaulttabelas.shtm - ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Tabelas_Completas/Tab_Compl_CNT.zip
https://www.dieese.org.br/cesta

Na área de serviços, os setores mais afetados foram o comércio, o setor imobiliário, de transportes e outros serviços. Interessante notar que o setor de intermediação financeira e seguros foi o único que cresceu durante a crise, o que leva à óbvia pergunta do seu papel na causa da mesma (principalmente considerando o peso do setor em outras crises pelo mundo, como o caso do Lehman Brothers, entre outros).

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor. - ftp://ftp.ibge.gov.br/Precos_Indices_de_Precos_ao_Consumidor/IPCA/Serie_Historica/ipca_SerieHist.zip

A inflação refletiu a crise, ultrapassando os 10% ao ano no final de 2015. Com o prolongamento da recessão, observamos depois a queda da inflação, num quadro que pode se transformar em deflação, caso a recessão se prolongue ainda por mais tempo.

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor. - ftp://ftp.ibge.gov.br/Precos_Indices_de_Precos_ao_Consumidor/IPCA/Serie_Historica/ipca_SerieHist.zip

Analisando mês a mês, vemos que dois picos de inflação, no início e no fim de 2015, causaram o acúmulo observado no final do ano. Esse tipo de oscilação (inflação alta no verão e baixa no inverno) aconteceu durante todo o período analisado (desde 1996), alcançando em 2015 um nível apenas meio ponto percentual acima do que vinha sendo registrado nos últimos anos. Mas uma pequena inflação extra mensal se acumula numa inflação extra perceptível ao final de um ano.

Fonte: https://www.bcb.gov.br/Pec/Copom/Port/taxaSelic.asp

A taxa básica de juros (SELIC), embora não tenha alcançado os valores em vigor antes de 2006, subiram o suficiente para poder responder por parte da crise, bem como pelo vigor do setor financeiro em meio à crise generalizada.

Fonte: http://radames.manosso.nom.br/palavras/politica/o-valor-real-do-salario-minimo-nos-ultimos-vinte-anos/

O salário mínimo (corrigido pelo INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor) mostra um ganho real ao longo de todo o período analisado. Porém sua variação não é a mesma durante cada governo.

R$316,19 em abr/1995 para R$448,37 em mar/2003 = R$132,18 em 96 meses = R$1,3769/mês (FHC)
R$448,37 em mar/2003 para R$756,08 em fev/2011 = R$307,71 em 96 meses = R$3,2053/mês (Lula)
R$756,08 em fev/2011 para R$883,70 em dez/2016 = R$127,62 em 71 meses = R$1,7975/mes (Dilma)

Usamos como ponto de corte o mínimo valor antes do próximo aumento nominal do salário mínimo, perto da data de posse de cada presidente. Intuitivamente, essa medida parece menos sujeita a variações aleatórias, além de que os primeiros meses de cada mandato parecem ser muito mais influenciados pela “herança” da gestão anterior do que pelas ações de cada governo.

Podemos ainda observar o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica.




Fontes:
http://radames.manosso.nom.br/palavras/politica/o-valor-real-do-salario-minimo-nos-ultimos-vinte-anos/
https://www.dieese.org.br/cesta/

No segundo gráfico fica visível o efeito da inflação de 2015/2016 sobre o poder de compra dos salários.

Como começamos com a variação do dólar no Brasil, vou inserir por último um gráfico - bastante confuso - que mostra a variação do dólar em vários países, a partir de 1971. É útil para avaliar variações causadas pelo dólar em si, e não pela política e economia deste ou daquele país.

Fonte: https://www.federalreserve.gov/releases/H10/hist/

E o preço do ouro em diferentes moedas, como contrapartida ao entendimento (ou tentativa de entendimento) das variações do dólar.

Fontes:
http://www.gold.org/statistics
http://www.gold.org/download/file/3022/Prices.xlsx
https://br.investing.com/commodities/gold-historical-data?cid=964524

Números tendem a ser menos enviesados que discursos, e assim temos agora um quadro aproximado do que tem acontecido no Brasil nas últimas décadas. Para entender corretamente, ainda precisamos avançar no cenário global, para tentar explicar as flutuações do dólar, dos investimentos, do comércio exterior, do preço das commodities e outras variáveis que afetam diretamente a nossa economia e, consequentemente, os ventos da política. Não tendo formação específica na área, ainda é difícil entender a relação entre todas essas variáveis, mas acho que posso afirmar que já é um começo.

Comentários, sugestões e críticas são muito bem vindas.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O que acontece na economia brasileira?

Para tentar entender o que acontece na economia brasileira, preparei alguns gráficos.









Em 1998 a inflação alcançou um valor negativo. Por isso foi preciso somar 1% para poder logaritmizar o eixo Y. O objetivo aqui é observar a variação ao longo do período, mais que os valores exatos.


Em 2002 o terrorismo psicológico dos grandes veículos de mídia dizia que "o Brasil ia quebrar" se Lula fosse eleito. Isso parece ter elevado o dólar. Lula foi eleito, o país não quebrou, e o dólar voltou aos patamares anteriores. A crise de 2008 também parece ter causado um leve aumento no preço do dólar. Mas o que causou a subida vertiginosa do dólar no final de 2014 e em 2015?


A dívida pública aumentou a partir do final de 2015, mas no início de 2017 havia voltado ao patamar de 2006, ainda muito abaixo do valor total do PIB. Poderia isso ter causado a crise atual? Esses dados, obtidos no site do Banco Central, não incluem valores da Eletrobras nem da Petrobras. Mas os valores relatados para os desvios e dívidas da Petrobras não chegam nem perto de explicar toda a variação observada.










Duas metodologias foram aplicadas em 2002. A linha vermelha se refere à metodologia aplicada nos anos seguintes.

Finalmente, um gráfico unindo todos os gráficos acima:


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Confúcio e Laozi


Confúcio visitou Laozi, e falou sobre a caridade e o dever para com o próximo.

Disse Laozi: “O farelo da peneira cega os olhos de um homem, de modo que ele não pode ver em torno. Os mosquitos mantêm uma pessoa acordada a noite inteira com as suas picadas. E do mesmo modo, essa conversa de caridade e dever para com o próximo quase me leva à loucura. Senhor! Esforça-te para conservar o mundo em sua simplicidade original. E do mesmo modo que o vento sopra onde lhe apraz, deixa a virtude ela própria se firmar. Para que desperdiçar tanta energia, procurando um fugitivo com um grande tambor?

“O cisne branco é branco sem se banhar diariamente. O corvo é negro sem se pintar diariamente. A simplicidade original do branco e do negro está além dos limites da argumentação. A perspectiva da fama e da reputação não é digna de ampliação. Quando a lagoa seca e os peixes são deixados na terra, umedecê-los com um sopro ou molhá-los com cuspe não se compara com deixá-los em seus rios e lagos nativos.”

Regressando de sua visita a Laozi, Confúcio se manteve em silêncio durante três dias. Um discípulo perguntou-lhe: “Mestre, quando viste Laozi, como o advertiste?”

“Vi um dragão”, respondeu Confúcio. “Um dragão que pela convergência mostrava um corpo, pela radiação tornava-se cor e correndo para as nuvens do céu alimentava os dois princípios da criação. Fiquei boquiaberto. Como pensas, então, que eu fosse advertir Laozi?”


Lao Tze e Chuang Tze – A Essência do Taoísmo
Trad. David Jardim Jr.
Ediouro 1985

quinta-feira, 27 de abril de 2017

História do Brasil em um parágrafo

"Quando um país é, em larga medida, posse de estrangeiros, a demanda social pela expropriação é recorrente e quase irreprimível. Outros atores do quadro político respondem que somente a proteção incondicional dos direitos de propriedade originais garante um ambiente adequado para o investimento e o desenvolvimento. O país se encontra, desse modo, preso numa interminável alternância entre governos revolucionários (cujo sucesso na promoção de melhorias na qualidade de vida de seu povo é, muitas vezes, limitado) e governos que protegem os interesses dos proprietários existentes enquanto preparam a próxima revolução ou golpe de Estado."

Thomas Piketty - O Capital no Século XXI - Ed. Intrínseca - 2014 - Pág. 75.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Bancos públicos promovem mais crescimento?


Lendo uma reportagem no Intercept Brasil, lembrei de um comentário feito há alguns anos por um colega economista no Facebook. Ele dizia que os países que mais crescem economicamente (maior aumento do PIB) geralmente têm a maioria dos bancos públicos.

Sua tese fazia sentido. Afinal, sabemos que boa parte do capital mundial é puramente especulativo, e os "magos das finanças" são especialistas em multiplicar números no computador, engordando suas contas bancárias sem nenhum retorno para a sociedade. Assim, quando deparados com a opção entre investir no crescimento do país ou em investimentos parasitários, espera-se que os bancos privados escolham o que der mais lucro.

Outros já falaram sobre isso, como o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega em 2012 e a advogada e presidente do Public Banking Institute, Ellen Brown, em 2011.

E, claro, há os que dizem o contrário, como este artigo no Journal of Finance, de 2002. Curiosamente, os autores afirmam logo no resumo que "higher government ownership of banks in 1970 is associated with slower subsequent financial development and lower growth of per capita income and productivity". Por que usam dados defasados em 32 anos para defender sua tese ainda é um mistério para mim.

Mas os números confirmam essa tese, ou teoria, ou hipótese?

Em primeiro lugar, vamos ao poder econômico das grandes nações. Antigamente, o G7 era o grupo das economias que dominavam o planeta: Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Alemanha, França, Canadá e Itália. Em 2014, porém, um novo G7 surgiu: China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia. Em termos de Paridade do Poder de Compra (que mede não o dinheiro no país, mas o que ele pode comprar), o novo G7 ganharia do anterior por 37,8 a 34,5 trilhões de dólares.

Uma pesquisa de 2013 reuniu alguns dados básicos sobre os bancos de 143 países. Quantos % dos bancos são públicos em cada um desses países? No antigo G7 temos: Estados Unidos (0%), Japão (sem dados), Inglaterra (26%), Alemanha (32%), França (2%), Canadá (0%) e Itália (0,1%). No novo G7 temos: China (sem dados), Índia (74%), Brasil (44%), Rússia (41%), México (13%), Indonésia (38%) e Turquia (32%). Acho que não é preciso calcular a média para ver a diferença. Mas para os perfeccionistas de plantão: antigo G7 média de 10,02%, novo G7 média de 40,33%. (PS extraído da pesquisa, página 7: "China did not respond to this question, but available information indicates the figure exceeds 90 percent. In the 2007 survey China did respond and reported the share was slightly less than 70 percent, but this only captured the four big state owned banks. The figure exceeds 90 percent even earlier if one includes all state or government owned banks".)

O gráfico a seguir, com dados do Banco Mundial, mostra o crescimento (e decrescimento) de alguns desses países entre 1960 e 2014:


Vemos os EUA, que em 1960 detinham 40% do PIB mundial, caírem para 22% em 2014. A China cresceu de menos de 2% para cerca de 13% em 20 anos, enquanto as nações do antigo G7 mostraram quedas consideráveis, especialmente o Japão, que caiu de 17,5% para 6% nos mesmos 20 anos. Alemanha, França e Grã-Bretanha também apresentaram queda, embora menos drástica. Já o Brasil apresentou um crescimento espetacular nos últimos anos, de cerca de 1,5% do PIB mundial em 2003 para 3,5% em 2011. A queda posterior, de 3,5% para 3,0% entre 2011 e 2014, foi muito menor que a "quebra do país" alardeada pela grande imprensa, principalmente quando comparada com o segundo mandato do "príncipe da privataria" Fernando Henrique Cardoso (1998-2002).

Mas esses dados ainda não são o bastante para testarmos nossa hipótese de que uma maioria de bancos públicos são saudáveis para o crescimento dos países. O gráfico abaixo relaciona todos os países para os quais temos dados, unindo a pesquisa de 2013 citada acima (com dados de 2011) com os dados sobre crescimento do Banco Mundial (para todos os anos entre 1961 e 2015). Como não entendemos exatamente como se dá a relação entre a propriedade dos bancos e o crescimento, usamos os dados de crescimento de 2008 a 2013, cruzando-os sempre com os dados bancários de 2011.

2008





A diferença entre os gráficos acima é que na esquerda estão presentes todos os países com dados disponíveis, enquanto na direita foi retirado o Zimbabwe, que apresentou um decréscimo atípico (o chamado outlier). Nos dois casos a relação positiva (quanto maior a % de bancos públicos, maior o crescimento do PIB) foi significativa (p < 0,03, ou seja, há uma chance de menos de 3% de que esses dados sejam mera coincidência -- digamos, apenas jogando números aleatoriamente numa tabela).

2009

Aqui não há outliers, e novamente se observa a relação positiva e significativa (p < 0,04) entre as variáveis estudadas. A linha de tendência, em vermelho, corta o eixo Y abaixo do zero (como pode ser visto na fórmula "+ -2,0699"), nos lembrando da quebradeira mundial que assistimos após os escândalos financeiros de 2008 (onde ninguém foi punido).

2010

Aqui o outlier no gráfico da esquerda foi Macao, com um crescimento bastante atípico. No gráfico da direita Macao foi removida. Antes da remoção, a relação era mais fraca e menos significativa (p < 0,05), após a remoção se tornou mais forte e mais significativa (p < 0,01).

2011


Com todos os países, a relação não é significativa o bastante (p > 0,10). Mas uma vez retirados os dois outliers mais evidentes, Macao com um crescimento bastante atípico, e a Grécia com um decréscimo atípico, a relação se torna outra vez bastante significativa (p < 0,02).

2012



De 2012 em diante a situação deixa de ser significativa, incluídos (p > 0,13) ou excluídos (p > 0,26) os outliers, a saber: Serra Leoa com um crescimento atípico e novamente a Grécia com decréscimo atípico.

Evidente que esses dados não encerram o assunto, há muitas outras variáveis envolvidas, e ainda não há explicação para o fato de dados bancários de 2011 se correlacionarem tão bem com dados do PIB de 2008, mas não com os de 2012. A não ser que tenha havido mais mudanças entre 2011 e 2012 do que entre 2008 e 2011, o que parece pouco provável (mas não impossível). Um estudo mais aprofundado poderia ajudar a esclarecer essas e outras questões.